sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Banda Democrática 2 de Janeiro


Há 100 anos, assim aconteceu


Em 1912, uma comissão de republicanos decidiu organizar o Centro Republicano Democrático e aderir ao Partido Republicano Democrático. Por essa altura, constituiu-se também o Partido Evolucionista de Aldegalega, que tinha como figuras mais destacadas António Rodrigues Caleiro, Álvaro Tavares Mora e o Dr. César Fernandes Ventura, entre outros.Nas eleições municipais que se realizaram em Novembro de 1913, apresentaram-se a sufrágio o Partido Republicano Democrático, que reunia o apoio do operariado e de largo espectro da pequena burguesia empresarial e progressista, e uma lista unitária conservadora constituída pela aliança dos partidos Evolucionista e Unionista, e por eleitores monárquicos e independentes, que gozavam de forte influência na Sociedade Filarmónica 1º de Dezembro.Ao vencer as eleições, o Partido Republicano Democrático, liderado pelo Dr.  Manuel Paulino Gomes, apressou-se a preparar a cerimónia de posse da nova vereação. Nesse sentido, oficiou o Centro Republicano Democrático de Aldegalega à Sociedade Filarmónica 1º de Dezembro solicitando a colaboração da sua banda, que seria justamente remunerada, para abrilhantar a cerimónia. A resposta foi negativa, porque não podia uma instituição fortemente apoiada por membros dos partidos Evolucionista e Unionista e alguns monárquicos participar nos festejos da vitória do adversário.A divisão política, que já se estabelecera em Aldegalega, estendeu-se, desta feita, às colectividades, demitindo-se muitos dos músicos da banda da Sociedade Filarmónica 1º de Dezembro, apoiantes do Partido Democrático, em protesto  pela decisão da direcção, criando-se uma situação embaraçosa para a instituição e para a própria filarmónica, que pôs em risco o seu futuro. A clivagem entre as duas associações transbordou para o seio pessoal alimentando uma aguerrida rivalidade que só foi ultrapassada nos nossos dias, subsistindo, ainda assim, algumas reminiscências que outra coisa não são do que a excepção que confirma a regra das boas relações cultivadas pelas duas colectividades.


No Centro Republicano Democrático, palacete que é hoje propriedade de Izidoro de Oliveira, preparou-se a resposta ao indeferimento do pedido, como nos conta Armando Iça:
«O acto político em perspectiva corria o risco de não ser devidamente realçado com a indispensável música, se não fora o facto de alguns filarmónicos da Sociedade [1º de Dezembro], mais simpatizantes e admiradores do Partido Democrático, resolverem atender o pedido do Centro.
Músicos de feição democrática havia-os, o que porém não existiam eram os instrumentos.
Tinha então a vizinha freguesia de Sarilhos Grandes a sua banda desorganizada e esta circunstância soluciona o caso: envidam-se esforços, trocam-se pedidos e gentilezas e, assim, o Centro obtém a cedência do instrumental. Manuel Cipriano Pio, Joaquim da Silva Mascarenhas e António Luiz Gouveia Júnior são os homens de confiança do Centro que vão buscar os instrumentos emprestados.
E de Sarilhos Grandes voltaram, trazendo em dois carros de tracção animal o ambicionado instrumental.
À roda deste incidente político avolumam-se discussões, azedam-se os ânimos, estimulam-se os caprichos e deste modo o referido Centro arranja mais de duas dezenas de executantes, uns sócios do Partido e outros elementos da outra Banda que não concordaram com a atitude desta, aderindo pois à nova causa.
Com regularidade e bastante concorrência começam os ensaios a 12 de Dezembro de 1913, sob a direcção do ensaiador da Filarmónica de Sarilhos, Senhor Eduardo Alvarez Blanco, até que chegou o dia da grande festa, que ficou gravada no coração de todos. Nesse mesmo dia ficou logo resolvido que fosse tornada efectiva a Banda, que um caso político organizara.
Jacinto Augusto Tavares Ramalho foi o entusiasta que generosamente ofereceu o primeiro instrumental à novel colectividade.»


Sede actual da Banda Democrática 2 de Janeiro. O jornal de feição republicano, “O Domingo”, propriedade de Augusto Saloio, relatava assim a “inauguração da Banda Democrática”, na sua edição de 4 de Janeiro de 1914:
«Pelas 13H00 de 2 de corrente, a Banda Democrática de Aldegalega, constituída por cidadãos republicanos e sinceros democrátas, teve a sua inauguração com o Ino Nacional tocado defronte do Centro Republicano Portuguez que se achava lindamente embandeirado, sendo n’essa ocasião lançadas ao ar bastantes girândolas de foguetes. D’ali a banda foi, acompanhada de muito povo, à estação dos caminhos de ferro esperar os ilustres deputados por este círculo, srs. Gastão Rodrigues, Luiz Derouet e Aníbal d’Azevedo, cumprimentando-os à chegada tocando a «Portugueza», ouvindo-se n’essa ocasião muitos vivas ao dr. Afonso Costa, aos deputados por este círculo e á República. A banda, em seguida aos cumprimentos, marchou com a «Portugueza» até ao Centro, sendo acompanhada por milhares de pessoas que entusiasticamente lhe davam vivas. Ás trez horas saiu novamente a cumprimentar a nova vereação dando em seguida uma volta pelas principaes ruas da vila, indo depois jantar ao Hotel República onde a alegre rapaziada trocou afetuosos brindes. Á noite foi novamente tocar defronte dos paços do concelho, cujo frontispício se conservava iluminado a electricidade percorrendo de novo algumas ruas da vila.»
A banda era então constituída por vinte e sete elementos e foi dirigida provisoriamente pelo maestro da Academia Musical União e Trabalho, Eduardo Alvarez Blanco.
Banda Democrática, claro! E poderia lá ter sido outro o nome? O Partido denominava-se Democrático e o Centro também. Se os progenitores eram Democráticos que outro apelido poderia ter a descendente senão Democrática?
Anos mais tarde, o Dr. Paulino Gomes recordava, deste modo, a sua fundação:
«Muitas pessoas não sabem nem podem calcular quanto representa em esforço, em boa vontade e em sacrifício a existência da Banda Democrática 2 de Janeiro. Banda Democrática é o seu verdadeiro nome; é o seu brasão. Filha do povo, para ele se fez e com ele se tem criado e progredido. Nasceu de uma simples conversa havida ali no antigo Centro Democrático, que serve hoje de residência particular e não habitual do Sr. Izidoro Maria de Oliveira e onde se travaram lutas espirituais de certo relevo.(...)Meia dúzia de rapazes destemidos e enérgicos prontificaram-se a constituir a Banda do Centro e para o Centro. Não havia dinheiro mas havia alma; não havia auxílios estranhos mas havia vontade. Tanto bastou(...).
Porque se intitula democrática e o é na verdade, há quem nutra pela distinta corporação um ódio por vezes oculto, mas que depressa é reconhecido. Pois aquela designação é o seu maior título de glória Democrática, porque não?»
A Banda Democrática 2 de Janeiro foi, como acabámos de ler, no seu alvor e na essência das suas funções, uma corporação cujos objectivos se confundiram com os do Centro Democrático e os do Partido Democrático. Sócios e dirigentes destas organizações viriam a corporizar também a Banda Democrática, como aconteceu com o Dr. Manuel Paulino Gomes, que foi o primeiro presidente da câmara eleito pelo Partido Democrático e o primeiro presidente da Banda Democrática 2 de Janeiro.
A extinção do Centro Republicano Democrático de Aldegalega, em 1922, devido a uma penhora de bens, deu à Banda Democrática o élan institucional necessário para que de mera banda de música se viesse a transformar numa associação, apropriando-se dos bens e da sede do Centro Democrático, de que fora legítima depositária, e sustentando-se nos sócios do extinto Centro, que tinham sido afinal os seus fundadores.
A transição foi pacífica, mas na assembleia geral realizada no dia 17 de Janeiro de 1923, os associados interrogaram-se sobre o futuro da instituição: “filha do Partido Republicano” ou um novo ente cultural e recreativo sob a égide dos princípios republicanos?
A discussão tinha uma razão de ser. A Banda não tinha estatutos e os defensores da posição mais radical escudavam-se na necessidade de mantê-la  ligada ao Partido Democrático como garantia que os seus ideais não seriam desvirtuados. Esclareceu então o Dr. Paulino Gomes que a essência política da Banda Democrática caía a fundo sobre a reacção clerical, que arrastava a população para uma falsa educação, ao contrário dos amigos da Banda que só pensavam na amizade dos seus semelhantes, no trabalho  e na realização dos verdadeiros princípios da democracia. Era esta essência que se pretendia salvaguardar.
Mas, em 1922, a Banda tinha iniciado um novo percurso, que a afastou de uma prática política radical e a conduziu à construção de uma imagem de colectividade aberta a todos os aldeanos, rumo que foi bem recebido «em geral pelo povo da nossa terra, que vendo que a orientação da nossa sociedade não era de molde a acirrar o ódio nem a alimentar discussões ou malquerenças nunca deixou de prestar auxílio à nossa banda, quando lho solicitamos, sem distinguir cores políticas ou convicções partidárias, apesar de nunca abdicarmos dos nossos princípios afectos ao Partido Republicano Português», como frisou o então director José Porfírio Ezequiel. Para corroborar as palavras do seu colega, o prestigiado sócio José Leonardo da Silva rematou: «não pode ela viver exclusivamente do Partido Democrático, que lhe deu o ser, porquanto sendo a cobrança mensal de cento e tal escudos é, no entanto, a sua despesa de trezentos e tal. Não é com o exclusivo concurso do Partido Democrático que se enchem as bancadas de um teatro, as bancadas de uma praça de touros ou as prateleiras de uma quermesse, mas sim com o valioso concurso de todos que pretendam auxiliar a Banda.». A assembleia geral acabou por ratificar o pragmatismo da direcção, que se passou a abster de «entrar colectivamente em questões políticas, não deixando contudo de demonstrar o seu republicanismo, sempre que as circunstâncias o exigissem.», e a assembleia geral extraordinária realizada no dia 21 de Junho de 1923, aprovou os Estatutos, que receberam consagração legal com o Alvará do Governo Civil de Setúbal, de 16 de Julho de 1928.
O Art.º 1.º daquele diploma definiu a Banda Democrática 2 de Janeiro como uma sociedade de recreio, que tinha por fim manter uma banda de música, proporcionar o ensino da música aos seus associados e filhos menores de 16 anos, de sexo masculino e proporcionar também o recreio aos seus associados por meio de récitas, concertos, sessões solenes, soirées, jogos autorizados por lei e quaisquer outras diversões que a direcção entendesse. Seguindo a lei vigente, só se podiam associar os indivíduos do sexo masculino, de boa reputação, de nacionalidade portuguesa e reconhecidamente republicanos.
Os estatutos eram rigorosos quanto à exigência do cumprimento dos princípios da boa moral republicana e, por isso, aos sócios que prevaricassem gravemente a direcção podia elevar a pena imposta, inscrevendo, num quadro afixado na sala da colectividade, o nome do prevaricador e a seguinte frase: “Indivíduo expulso por indigno de pertencer a uma colectividade de homens de BEM”.


Ruky Luky

Um comentário:

  1. Caro Rui Aleixo, como sempre fico muito grato pelas suas publicações. Bem haja
    SCosta

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