sábado, 29 de setembro de 2012

As Bandeiras da Santa Casa da Misericórdia de Aldeia Galega do Ribatejo/Montijo [Séc. XVI – XIX]


1. A Primitiva Bandeira
 
SVB TVVM PRAESIDIUM COFUGIMUS,
Sub tuum praesidium confugimus, Sancta Dei Genetrix. Nostras deprecationes ne despicias in necessitatibus, sed a periculis cunctis libera nos semper, Virgo gloriosa et benedicta. Amen.
À vossa proteção nos acolhemos, Santa Mãe de Deus.Não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades, mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita. Amém. [Antífona gregoriana]
O Compromisso da Santa Casa da Misericórdia de Montijo, de 1589, obrigava aos «irmãos tanto que ouvire[m] a campainha com a insígnia que está ordenada para chamamento dos Irmãos virem a casa para cumprirem as obras da Misericórdia.»
Servia, assim, a insígnia para identificar o andante na sua missão de convocar os irmãos.

 Mas a Bandeira, como símbolo da Irmandade, estava também solenemente presente na procissão, porque o Compromisso a isso ordenava: «diante irá a Bandeirada Misericórdia a qual levará um Irmão Nobre», e nos funerais «a Bandeira da Irmandade (será) levada por um Irmão Nobre.»

 Os Compromissos da Santa Casa da Misericórdia de Aldeia Galega, de 1589 e 1766, não se referem à bandeira, contudo ela aparece descrita no Compromisso da Misericórdia de Lisboa, de 1516.

 A bandeira tinha num dos lados a imagem de Nossa Senhora com o manto levantado por dois anjos, tendo à direita a figura do Papa, de um Cardeal, de um Bispo e de Frei Miguel Contreiras, todos de joelhos e de mão postas. Do lado esquerdo, estavam representados o rei D. Manuel I, as rainhas Santa Isabel e D.ª Leonor, dois velhos, companheiros de Frei Miguel Conteiras na fundação da Misericórdia de Lisboa, e figuras protegidas pela instituição, todos de mãos postas, e no outro a imagem de Cristo crucificado.

As bandeiras passaram a ser concebidas em cada Misericórdia consoante as aptidões dos artistas encarregados da obra, o que deu em resultado não se saber quem representava cada uma das figuras retratadas.

A Virgem da Misericórdia , de pé e de mãos postas sobre uma nuvem, envergando uma túnica acinzentada e um amplo manto azul que dois anjos mantêm aberto sobre dois grupos de figuras genuflexionadas.Sob a nuvem, encontra-se representado um homem pobremente vestido e com um braço ao peito, simbolizando aqueles a quem a Misericórdia acode.
 A Santa Casa da Misericórdia de Aldeia Galega também teve a sua bandeira.

No inventário de 1587 [?] regista-se a existência de “7 insígnias pretas”, mas quatro anos mais tarde, em 1591, o escrivão Fernão Rodrigues Pimental nada assinala.

 No dia 26 de Maio de 1591, a Misericórdia celebrou um contrato de obrigação com Tomás Luís, pintor a óleo, e Domingos Pacheco, pintor de têmpera, moradores em Lisboa, para dourarem e pintarem o retábulo da Santa Casa, pela quantia de 120$000 réis.

 Em 8 de Junho de 1591, Domingos Pacheco firmava contrato com a Misericórdia, tendo recebido do «Provedor António da Gama de Mendonça 20$000 réis que o dito senhor deu para se fazer o trabalho da Misericórdia.»


Figuração do rei e da sua esposa. Atrás vêem-se dois homens, um imberbe e outro barbado.
Um ano depois, em 28 de Junho de 1592, D. Antónia Silva, mulher do Provedor António da Gama de Mendonça, pagou aos mesmos pintores a quantia de 100 cruzados, por pintarem «o painel do meio e doirar as colunas e friso de cima o qual entrou no contrato que temos feito à Misericórdia.»

 Em 1592, estavam concluídas a pintura do retábulo e as encomendas feitas por D. Antónia da Silva e pelo seu marido, Provedor António da Gama de Mendonça.

D. Antónia da Silva, que foi provedora da instituição, presenteou-a com várias dádivas, entre elas, a bandeira, que custou 45$000 réis, bem como as 7 insígnias.

Não é possível precisar a data em que as insígnias foram pintadas, mas se admitirmos a probabilidade de terem sido executadas pelos mesmos artistas que decoraram o retábulo, então, poderemos concluir que foi no ano de 1592.

No inventário, de 10 de Julho de 1606, regista-se a existência de «1 insígnia de Nossa senhora da Piedade que serve no altar no tempo da Quaresma, 7 insígnias das Endoenças e 2 bandeiras uma da Irmandade com sua fronha em que está metida e a cruz em cima com sua fronha de tafetá preto e outra bandeira ordinária metida em sua fronha.»
 
No lado esquerdo da bandeira, pontificam um papa, de mãos unidas e com a tiara deposta no solo, um frade trino, e dois outros homens de posição social indiferenciada.
No inventário de 1653, aparecem referidas «duas bandeiras, uma da Irmandade com os seus cordões e borlas de oiro e sua capa e outra bandeira dois acompanhamentos ordinários e as sete insígnias dos passos da Paixão de Cristo para a procissão das Endoenças.»

O escrivão que, em 1666, fez o inventário, descreveu «duas bandeiras, uma nova da Irmandade com sua franja de ouro e quatro cordões pendentes do mesmo e umas borlas e outra bandeira velha dos acompanhamentos ordinários.»

Até ao final do séc. XVIII encontram-se referências às duas bandeiras da Irmandade, a que foi oferecida por Dona Antónia da Silva, provavelmente reproduzindo fielmente a Bandeira da Misericórdia de Lisboa, e a outra dos “acompanhamentos ordinários”, que saía por altura das procissões e dos funerais. Da primeira nada se sabe. Ao tempo e aos homens só resistiu o pendão representando, no anverso, Nossa Senhora da Misericórdia, e, no verso, Nossa Senhora da Piedade, continuando esta a enriquecer o património da Santa Casa da Misericórdia de Montijo.   

O inventário dos bens da Santa Casa, realizado em 1807, regista a existência de «duas bandeiras a Real e a dos Actos Comuns», além dos sete painéis da paixão. A bandeira real perdeu-se também.

Em 1768, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa criou o seu primeiro selo, que passou a ser adoptado por todas as congéneres, que reproduzia dois escudos encimados pela coroa real. Um dos escudos tem gravadas duas tíbias em aspa encimadas por uma caveira e esta encimada por uma cruz alta com raios nos cantos e acompanhada da abreviatura da Misericórdia, tendo o da direita as letras Mi, e o da esquerda as letras Za, ou as letras M, do lado direito, e ZA do esquerdo.
 
Anverso da bandeira. Lamentação sobre Cristo Morto. Na faixa branca encontra-se a inscrição "LIVORE EIVS SANATI SVMUS. ISAIAS. [53:5] - "As Suas feridas são os nossos remédios". 
A imagem representa, além de Cristo morto, a Virgem, do lado esquerdo, Maria Madalena , e no lado opsoto, São João evangelista.
A Santa Casa da Misericórdia de Aldeia Galega do Ribatejo também adoptou este selo e o terá transporto para a bandeira. A esta refere-se o inventário de 1807, aquele está a autenticar alguns os ofícios da instituição, por exemplo, o de 5 de Março de 1891.

O selo identificará a Santa Casa da Misericórdia de Aldeia Galega até ao início do século XX.

Os nossos agradecimentos à Santa Casa da Misericórdia de Montijo pela cedência das imagens.
 

Ruky Luky


sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Dupla Troika em Montijo

O PAEL NÃO ENGANA NÃO!
 
Apesar das óptimas condições financeiras, económicas e políticas de que gozou durante os seus mandatos, Maria Amélia Antnues, dita autarca modelo do PS, conduziu as finanças locais para um pedido de resgate e os montijenses para maiores sacrifícios de austeridade. 
 
A Câmara Municipal de Montijo [CMM] aderiu ao PAEL, Programa de Apoio à Economia Local, que tem por objecto a regularização do pagamento de dívidas dos municípios vencidas há mais de 90 dias, registadas na Direcção -Geral das Autarquias Locais(DGAL) à data de 31 de Março de 2012. O PAEL abrange todos os pagamentos dos municípios em atraso há mais de 90 dias, independentemente da sua natureza comercial ou administrativa.

Ao abrigo deste programa, a CMM vai realizar um contrato de empréstimo com o Estado no montante de € 1 285 714,00 para liquidar as dívidas aos fornecedores.

O Plano de Ajustamento Financeiro tem uma duração equivalente à do empréstimo, 14 anos, e tem de alcançar, através de um conjunto de medidas específicas e quantificadas, que evidenciem o restabelecimento da situação financeira do município, os seguintes objectivos:

a) Redução e racionalização da despesa corrente e de capital;

b) Existência de regulamentos de controlo interno;

c) Optimização da receita própria;

d) Intensificação do ajustamento municipal nos primeiros cinco anos de vigência do PAEL.

O município fica obrigado a divulgar no sítio oficial da Internet, bem como em edital afixado nos lugares de estilo e no boletim da autarquia, os seguintes documentos:

a) Pedido de adesão ao Programa;

b) Contrato celebrado com o Estado, incluindo todos os documentos anexos.

 Trata-se, afinal, de um Plano de Resgate das finanças municipais, que condiciona a autonomia da autarquia e significará para os montijenses maior austeridade, uma vez que o município terá de ajustar as taxas e preços dos serviços que presta à população para “optimizar a receita”, isto é, aumentar os preços.

Durante anos, o Partido Socialista/Montijo orquestrou uma campanha de propaganda política tendente a convencer os montijenses que as finanças municipais eram exemplares e que a CMM cumpria os seus compromissos a 30 dias.

Os fornecedores há muito tempo que se queixavam que as facturas chegavam a aguardar meses, às vezes mais de um ano, para serem liquidadas, mas a população só começou a sentir a gravidade da situação quando dos serviços básicos da autarquia começaram a entrar em colapso. O escândalo com a falta de refeições e de transportes escolares, no início de Setembro, foi a sirene final a alertar a população para a difícil situação financeira das CMM a braços com dívidas elevadas e empréstimos a médio longo prazo que a sufocam.

 Depois da Troika estrangeira, os montijenses têm agora de suportar também a "Troika portuguesa" – Passos, Gaspar e Relvas -, numa intervenção pedida pela autarquia, que comprime a autonomia municipal e trará acrescidos sacrifícios aos montijenses.

 O PAEL, como o algodão, não engana não, a rainha vai nua. 

  Ruky Luky

 

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O Bairro dos Pescadores

Aspectos do Casario Humilde, Térreo ou de Andar
 
O Largo dos Pescadores
 
São escassas as referências à classe piscatória da Vila de Aldeia Galega do Ribatejo.
 
A existência de pescadores é contemporânea com o aparecimento da vila, embora Aldeia Galega tenha sido, na sua origem, uma terra de camponeses, que recebeu, posteriormente, um forte contributo dos mareantes.
 
Na Igreja Matriz há uma capela de invocação a Nossa Senhora da Conceição onde está gravada a inscrição: “Esta capela de madre Deos fizerão hos mariantes desta vila 1575”.
 
 
As novas urbanizações estão a conferir outras características ao Bairro. 
 
Do lado da epístola encontra-se outra de invocação a Nossa Senhora da Purificação com o letreiro: “Esta capela de Nossa Señora da Purificação estituíram os omeis trabalhadores desta vila ano de 1607 ”.

Os pescadores possuem um pequeno altar onde jaz a imagem de S. Pedro. “Mareantes e Omeis Trabalhadores” ajudaram a edificar a igreja assim como já o tinham feito com a vila.

No final do século XVI, princípios do século XVII, a vila de Aldeia Galega do Ribatejo era habitada essencialmente por “ Omeis trabalhadores”, mareantes, pescadores, clero e nobreza, representada por alguns cavaleiros do reino, e recebia quotidianamente uma considerável população flutuante que procurava alcançar Lisboa ou terras Alentejanas ou estrangeiras.


O Bairro está, hoje, cercado pelas urbanizações que se construíram nos seus limites.

A terra era pobre e só o tráfego fluvial a animava e “ por ser escalla e passagem para a banda do Alentejo he mais povoada que não por abundância de sítio”. Dividia-se, então, por dois núcleos: Aldeia Galega e Aldeia Posta, onde se edificou o bairro dos pescadores no século XVIII, isolado quer da vila quer do convento, este edificado no século XVII.

O bairro foi-se dispondo“ por várias artérias regulares, cortadas por travessas do mesmo tipo e era constituído por casario humilde, térreo ou de andar, na vizinhança de viveiros de peixe, abrigados por diques de terra batida (...)”.


Onde hoje está a rua, ontem era o rio

Situado num dos extremos da cidade, o Bairro, que viu o rio que o beijava a afastar-se, tem vindo progressivamente a perder as suas características e vê o velho casario a ser substituído por novas edificações.

Contam os velhos pescadores que os quintais davam directamente para o rio, de tal modo que era possível encostar a canoa ao portão. Hoje, em determinadas zonas do Bairro, há novas urbanizações construídas em terrenos conquistados ao rio, que constituem uma barreira entre o velho bairro e o rio.

Os poucos pescadores que existem e a reduzida faina de pesca permitem-nos concluir que, no Bairro, os pescadores são uma saudade.



 
 

 
 
Casas humildes do Bairro dos Pescadores. Casa térrea, baixa, com telha canudo e sem janela. A do lado esquerdo já tem telha marselhesa e porta de alumínio.

 
 
 
 
 

Rede na porta, costume em desuso. Portas de alumínio, tendência dos tempos

Rótulas e redes nas portas.
 

 
 

 
 
Casa sobrada

 
Entrada para o Pátio do Padeiro

 
O "estaleiro" à porta de casa, costume que perdura.
 
 
 
Sob a protecção do Santo.
 
 
Ruky Luky

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O noivo é escravo e pode ser vendido


O noivo é escravo e pode ser vendido

Casamento entre escravos. A família podia ser separada se um dos cônjuges fosse vendido.[Gravura colhida da rede].
 Já aqui escrevi sobre a escravatura e publiquei a notícia do testamento do padre Francisco Alves, proprietário de quatro escravos, no século XVII.
Entre os escravos do padre, fiz uma referência especial à sua escrava mulata, Margarida, que fora ricamente dotada pelo sacerdote, inclusive, com a carta de alforria, e que veio a casar com o marroteiro, homem livre dirigia o trabalho dos operários nas salinas de Aldeia Galega do Ribatejo.

Margarida foi bem-sucedida no casamento. Teve uma filha, que foi dotada também pelo sacerdote.
Mão amiga fez-me chegar uma informação sobre outro casamento, em que ambos os nubentes eram escravos, e que se realizou na paróquia de Aldeia Galega do Ribatejo.

No distante ano de 1578, Rodrigo Álvares, escravo, e Filipa Jorge, escrava forra, casaram na paróquia de Aldeia Galega do Ribatejo. Durante a cerimónia, o proprietário de Rodrigo levantou problemas àquela união declarando que poderia vender o seu cativo. Interrompida a cerimónia, o padre alertou a noiva sobre a questão, e esta declarou que iria com o seu marido se ele fosse vendido.

Unidos pelo amor na alegria e na desgraça.

Quantas interrogações ficam sem resposta...

Ruky Luky

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Rosildo

O Senhor do Cinema
 
Rosildo R. Oleiro, o senhor Rosildo, figura estimadíssima de Montijo.
Há homens capazes de transformar em sereno amor a mais ardente paixão, confundindo-se com a coisa amada.

Rosildo Rodrigues Oleiro começou a trabalhar no Cinema-Teatro Joaquim de Almeida, em Janeiro de 1959, e, no dia 31 de Maio de 1991, encerrou-lhe as portas. Continuou, no entanto, a ser o leal servidor do cinema, conservando-o intacto até ao momento em que foi adquirido pela Câmara Municipal de Montijo.

Tendo começado a trabalhar com a categoria de fiel, passou a fazer as projecções nas esplanadas, durante o Verão e, quando vagou o lugar de projeccionista, passou a desempenhá-lo com elevada competência e brio.

Ao longo dos 40 anos que serviu o Cinema, o sr. Rosildo, como simpática e carinhosamente é tratado pela população de Montijo e, muito especialmente, pelos cinéfilos, aprendeu, um a um, os cantos da casa, descortinou as manhas dos engenhos, identificou-se com a sua “arte”, a de se manter fiel ao cinema, entusiasmando-se, como se a casa fosse sua, com os grandes sucessos que o cinema alcançou, mas penando de igual modo com os fracassos.

Foi mais do que um projeccionista. As companhias de teatro, que utilizaram o cinema, não deixaram de distinguir o fino trato e a disponibilidade total deste trabalhador, que nunca olhou para o relógio, mesmo quando o trabalho de montagem se prolongava pela noite dentro, para logo recomeçar às primeiras horas da manhã.

É a memória do Cinema-Teatro Joaquim de Almeida. Acompanhou a evolução da 7ª Arte, entre uma bobine e outra, que substituía de vinte em vinte minutos. Viveu a crise do cinema e acalentou sempre a esperança de o ver renascer, mas surpreendeu também os primeiros namoricos; viu gerações crescerem entre o 3º Balcão e a Plateia, e tornou-se figura incontornável da História do Cinema-Teatro Joaquim de Almeida.

Pessoa humilde, nunca foi figura de cartaz, mas será sempre, por excelência, o cartaz maior do Cinema-Teatro Joaquim de Almeida, de tal sorte que, se se não quiser violar a fronteira da Justiça, não se poderá evocar a História deste cinema sem uma referência ao papel do senhor Rosildo.

São homens da dimensão de Rosildo Rodrigues Oleiro, capazes de levar a Carta a Garcia, que garantirão sempre o brilho intenso das Luzes da Ribalta. São estes homens, que vivem a poesia da vida no encantamento da sua profissão, que elevam o espectáculo à dimensão de Arte.

O senhor Rosildo e sua esposa, Senhora Dª Lourença Maria Anjos Ferreira, que continuaram a cuidar do cinema, após o encerramento, quando a Câmara Municipal de Montijo adquiriu o edifício, em 1999, entregaram as chaves e retiraram-se com a profunda satisfação do papel cumprido. Sabiam que, se naquele momento se quisesse retomar as sessões cinematográficas, bastaria bobinar o filme e ligar o interruptor da máquina.
O Cinema-Teatro Joaquim de Almeida tinha ficado confiado a boas e honestas mãos.
 
Obrigado!
 
Ruky Luky

 

domingo, 16 de setembro de 2012

A Santa Casa da Misericórdia de Montijo

Os Primeiros Tempos

A Igreja da Misericórdia e, adossada, a Santa Casa da Misericórdia, no Largo da Misericórdia [hoje, 1.º de Maio]. No lado esquerdo da fotografia, é  visível o primeiro poço de abastecimento da vila. Este poço aparece já referido no Título das Propriedades Pertencentes à Câmara de Aldeia-Galega mandado fazer por D. Manuel, em 1498, nos seguintes termos: «Ho ditto concelho há na ditta villa hu poço de que bebe todo o povo, que esta no cabo do lugar em querendo ir para Alcouchete».

O Tombo do Hospital, Albergaria e Capela de Aldeia Galega do Ribatejo, datado de 1489, contém referências ao «provedor do hospital, capela e albergaria, provando a existência daquela instituição anteriormente à data do referido documento.

 Não se conhece data da fundação da Albergaria, mas tem-se por adquirido que foi desta antiquíssima instituição da Confraria do Divino Espírito Santo que, natural e gradualmente, evoluiu a Irmandade da Santa Casa da Misericórdia de Aldegalega [Montijo, a partir de 1930], que se tornou a legítima herdeira do seu rico património espiritual e matéria.

Não é possível precisar a data da fundação da Santa Casa da Misericórdia de Aldegalega do Ribatejo.

O padre António de Carvalho diz, na sua “Corografia Portuguesa”, de 1709, que a «Igreja da Misericórdia se fundou no ano de 1553”, presumindo-se então que a existência da Irmandade é anterior àquela data.

O Padre Luís Cardoso, no “Dicionário Geográfico”, de 1745, toma aquela data como a da fundação da instituição, e o mesmo aconteceu, em 1904, com Esteves Pereira e Guilherme Rodrigues, em “Portugal – Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico”.

A “Relação das Irmandades e Confrarias Existentes no Concelho de Aldegalega do Ribatejo”, de 1841, regista o ano de 1512 como tendo sido a data da fundação da Santa Casa da Misericórdia de Aldeia Galega do Ribatejo, mas a Provedoria da Santa Casa da Misericórdia de Aldeia Galega do Ribatejo, na resposta ao questionário formulado pela Administração do Concelho, de 22 de Maio de 1885, indica o ano de 1520 como o da fundação da Confraria.

A evolução da Albergaria para a nova Irmandade, cujos princípios se confundem, não preocupou os irmãos da Misericórdia que, mais ocupados em fazerem o bem e a salvarem as almas, se limitaram a «guardar compromisso tirado pelo da Confraria da Misericórdia de Lisboa, cabeça que emanam todas as demais casas da Confraria de Misericórdia deste Reino de Portugal», apenas em 1589, que obteve confirmação real em 1625.

Embora tivesse começado as obras de edificação do seu templo alguns anos antes, a Irmandade recebeu carta régia de D. Sebastião, de 17 de Julho de 1571, que a autorizava a construir a igreja. Em 1591, estava concluída a construção do novo hospital.

A edificação da Igreja, do Hospital e a doação da Bandeira da Irmandade ficou a dever-se ao empenho, dedicação e benemerência de D. Nuno Álvares Pereira, António Gama Lobo e D.ª Antónia da Silva, provedores, e de Isabel de Almeida, esposa de D. Nuno Álvares Pereira.

A confraria era administrada pelo Provedor, «homem fidalgo, honrado, de autoridade, virtuoso, de boa fama e humilde e sofrido pelas desvairadas condições dos pobres», que era assistido pela Mesa constituída por doze irmãos, que entre si repartiam os cargos de escrivão, arrecadador de esmolas, visitadores e mordomos da capela, do hospital, da bolsa e dos presos.

A Irmandade reunia-se em assembleia geral quatro vezes por ano: no dia da Visitação de Nossa Senhora, para eleger o Provedor e a Mesa; no dia de Todos-os-Santos, para acompanhar a procissão que recolhia as ossadas dos que «não estavam em (chão) sagrado»; no dia de S. Martinho, pela missa e pregação e saimento que se fazia por todos os irmãos defuntos; e na quinta-feira de Endoenças, para a procissão dos penitentes.

O Provedor e os Irmãos deviam promover a amizade entre as pessoas desavindas, principalmente nos dias de Quaresma por serem de penitência, além de serem obrigados a cumprirem as obras de misericórdia [Corporais - Dar de comer a quem tem fome, Dar de beber a quem tem sede, Vestir os nus, Acolher os errantes, Visitar os doentes, Libertar os prisioneiros e Sepultar os mortos; Espirituais - Dar bom conselho a quem pede; Ensinar os ignorantes; Corrigir os que erram; Consolar os que estão tristes; Perdoar as injúrias; Suportar com paciência as fraquezas do nosso próximo; Rogar a Deus pelos vivos e pelos defuntos].

 A admissão da Irmandade estava reservada aos cristãos-velhos, casados ou solteiros com mais de quarenta nos, que fossem de «boa fama, sã consciência, honesta vida, tementes a Deus e guardadores dos seus mandamentos, mansos e humildes e limpos de sangue, sem alguma raça de mouro ou de judeu e que soubessem ler e escrever».

Assim era a Santa Casa da Misericórdia de Aldeia Galega do Ribatejo [Montijo], nos primeiros séculos da sua existência.

 
Ruky Luky

 

 

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Ateneu Popular de Montijo

O Renascer do Ateneu Popular de Montijo


Aspecto da nova sede do APM localizada na Rua Luís Calado Nunes [Pátio Aldegalega], Loja H, em Montijo.
Há cerca de quinze anos que o Ateneu Popular de Montijo (APM) procurava uma solução para a sua sede, que deixara de oferecer condições de segurança.

Ao assinar, recentemente, com a Câmara Municipal de Montijo um protocolo de cedência de um edifício, onde passará a funcionar a sua sede, o APM alcançou um dos objectivos essenciais para dar um novo impulso às suas actividades.

O APM foi fundado em 15 de Dezembro de 1939, por um grupo de jovens que se dedicava ao estudo de esperanto, que se anunciava como língua universal a ligar os povos.

Cosme Benito Resina, Joaquim Lavado, Manuel Luciano Lucas Alegria e António André Lopes Barreto instituíram, então, a associação que tinha por fim «desenvolver entre os seus associados e familiares a edução intelectual e física, proporcionando-lhes meios de cultura e distracção e a expansão do desporto.»

Ao longo da sua vida o APM tem dado corpo aos seus estatutos respondendo aos anseios dos seus sócios e de Montijo.

Neste sentido, inicialmente, o grupo constituinte começou por estudar o esperanto para alargar, progressivamente, a sua acção ao domínio da instrução, criando cursos de alfabetização, uma biblioteca e cursos de História e Língua Pátria, Dactilografia e Oratória, esta praticada aos domingos nas agradáveis reuniões, que ficaram conhecidas como “Chá do Ateneu”.

Nos nossos dias, tendo-se já afirmado como associação retintamente cultural, o APM aposta na divulgação do xadrez, participando em várias competições; do cinema, com a criação de um cine-clube e a realização de sessões na sua sede, debates e realização de filmes; da fotografia, com a criação de um núcleo de fotografia responsável pela realização de várias exposições. Atenção especial mereceu ao APM o debate de ideias e a defesa e divulgação do património histórico-cultural do concelho, realizando visitas de estudo e promovendo várias edições de postais e de um jornal sobre temas locais.

Ao longo dos anos, a boa imagem do Ateneu tem colhido a simpatia e a colaboração de várias figuras nacionais, nomeadamente, José Jorge Letria, Helena Neves, Rogério Paulo, Ary dos Santos, José Manuel Nunes, Tito Lívio, Zeca Afonso e o Arquitecto Tomás Taveira, que com a sua participação contribuíram para a formação de muitos jovens e para o engrandecimento cultural de Montijo.

Não foi a primeira vez que o APM atravessou uma grave crise e dela renasceu como a Fénix.
A história contemporânea do APM regista o nome de Joaquim Carreira Tapadinhas, responsável e impulsionador do segundo fôlego da associação, a cujo esforço, generosidade e abnegada dedicação deve a instituição a sua sobrevivência na década de sessenta.

Hoje, um grupo de sócios, presidido por Carlos Traquina, pretende colocar o APM na rota do século XXI.

Com o nosso apoio o farol da cultura voltará a brilhar no Ateneu Popular de Montijo.

Amanhã, dia 15 de Setembro, o APM reabre as suas portas. Como bem disse Manuel Barrona: «É uma casa de homens livres».

Histórias para recordar


José Vintém e a Fabulosa Geração

 
Foi uma geração artistiscamente fabulosa. Da música ao teatro, da animação de rua à organização das Festas Populares de S. Pedro, muito Montijo deve a esta geração. É da mais elementar justiça recordá-la. Todos eles amadores, mas todos exímios músicos. O conjunto Eldorado marcou uma época.
José Vintém pertenceu a uma geração de talentosos montijenses que deu um contributo ímpar à cultura da sua terra.

Sem vedetismos nem falsas modéstias, com tenacidade e amadorismo, com entrega plena à arte que amavam, um punhado de jovens escreveu uma das páginas mais belas da história cultural do Montijo. O Grupo Cénico do Montijo, a Orquestra Eldorado, a Parada da Alegria e tantos outros eventos, cuja história urge escrever, são o aval do profícuo trabalho de José Joaquim Caria, Humberto de Sousa, Ribeiro Vintém, Luís Onofre e tantos outros e outras jovens que caminharam pelas alamedas do sonho vivido nesta terra que tanto amaram.

José Vintém, ou Ribeiro Vintém como se apresentava enquanto jovem artista, além de ter sido considerado um dos melhores bateristas portugueses, foi músico de amplos recursos, apresentador, actor amador e vocalista.

Homem simples, retrato do derradeiro e genuíno cavalheiro, a ele devo um aceno de saudade e de gratidão por ter partilhado comigo parte da história do Montijo que ele também ajudou a escrever. E que aqui a passarei a lembrar.

Ruky Luky 

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

TOURADA!

Que Grande Pega!
 
Muitos são os que fogem, poucos o que agarram o touro de caras.
 
Não importa sol ou sombra
camarotes ou barreiras
toureamos ombro a ombro
as feras.
Ninguém nos leva ao engano

toureamos mano a mano
só nos podem causar dano
espera.

Soam brados e olés dos nabos
que não pagam nada.
 
Com bandarilhas de esperança
afugentamos a fera
estamos na praça
da Primavera.
 
Nós vamos pegar o mundo
pelos cornos da desgraça
e fazermos da tristeza
graça.

Entram empresários moralistas
entram frustrações
entram antiquários e fadistas
e contradições
e entra muito dólar muita gente
que dá lucro as milhões.
 
E diz o inteligente
que acabaram as canções.


Letra: Ary dos Santos
Foto: Praça 1.º de Maio - Montijo.

Ruky Luky

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Tão Diferentes e Tão Iguais

O Governo e a Câmara Municipal

Em tempos de crise, o que separa o Governo[PSD] da Câmara Municipal [PS]?
 
O Governo [PSD/CDS] promete agravar os impostos, no próximo ano; a Câmara Municipal de Montijo [PS], afinando pelo mesmo diapasão, promete aumentar as taxas municipais.
 
O Primeiro-Ministro anunciou o aumento das contribuições para a Segurança Social (de 11% para 18%); a presidente da Câmara Municipal de Montijo, depois de ter aumentado, recentemente, a taxa de recolha de resíduos sólidos, declarou que aplicará a taxa máxima [0,8%] do Imposto sobre Imóveis (IMI).
 
 O Primeiro-Ministro justificou a sua decisão com a «situação excepcional» e de «emergência financeira nacional»; a presidente da Câmara Municipal de Montijo defendeu que não pode «abrir mão de um cêntimo que seja da receita do IMI».
 
O Primeiro-Ministro nada disse sobre as gorduras e as mordomias do Estado; a presidente da Câmara Municipal calou-se sobre as gorduras e  os «assessores de duvidosa utilidade» da Câmara Municipal de Montijo.
 
A comunicação social deu voz à pluralidade de opiniões sobre as medidas avançadas pelo Primeiro-Ministro; o único jornal que circula em Montijo congratulou a presidente da Câmara Municipal de Montijo pela sua inépcia em garantir atempadamente as refeições e os transportes escolares.
 
O cidadão está assim entre dois fogos cruzados e implacáveis, que visam os seus já parcos rendimentos.

Um dos seus bolsos é para o Governo, o outro para a Câmara Municipal.
 
Que faire?
Ruky Luky



 



 

 

 

 

domingo, 9 de setembro de 2012

O Primeiro Prisioneiro de Guerra de Montijo

O Valente Soldado Lúcio Lopes Júnior

Lúcio Lopes Jr. 1.º Cabo Ciclista de Infantaria n.º 2
 
«Ninguém ignora que a Alemanha declarou guerra a Portugal, e que o Governo da República, interpretando nobremente o sentir do Povo, aceitou o desafio.

Estamos pois em guerra. Para os campos de batalha em defesa da Liberdade e do Direito vão dentro em breve partir os filhos de Portugal.

Vão cumprir o mais nobre dos deveres...», escrevia, em Maio de 1916, o jornal aldeano “A Razão”, ligado ao Partido Republicano Democrático.

Para a guerra, para terras de França, partiram também os filhos de Aldegalega , e para o esforço de guerra deu a Banda Democrática o seu contributo participando activamente na Junta Patriótica de Aldegalega, criada com a missão de recolher donativos e dar auxílio às famílias dos soldados mobilizados, ou organizando ela própria bandos precatórios, cujo fim era angariar donativos para que aos soldados que partiam para os campos de batalha não faltassem os indispensáveis confortos.

Para a guerra partiu também a franzina figura de Lúcio Lopes Júnior, 1,58m de altura, que viria a ser um dos heróis esquecidos da Batalha do Lys.

«Eram 4H15 do dia 9 de Abril (1918) – noite ainda – quando, subitamente, uma violentíssima chuva de granadas de todos os calibres inundou todo o sector Português (...).

Por força dos bombardeamentos e das missões, as unidades foram obrigadas a fraccionar-se; muitas dessas fracções, na marcha para os seus destinos, alguns a grande distância, avançando através de um nevoeiro que os cegava, constantemente fustigados pela metralha e perseguidos pelos gases, com mortos e feridos, acabaram, exaustos, por instalar-se onde conseguiram chegar, e aí cumpriram, como lhes foi possível, o seu dever (...).

Apesar do abatimento físico e moral em que se encontravam, apesar do seu reduzidíssimo efectivo em praças e oficiais, a Infantaria (...) levou a defesa das trincheiras até onde era humanamente possível (.)».

Entre esses homens encontrava-se o ordenança ciclista, o aldeano e sócio da Banda Democrática 2 de Janeiro, Lúcio Lopes Júnior, que se bateu até ao limite das suas forças, e acabou feito prisioneiro pelas tropas alemãs.

Quando, em Aldegalega se soube que, no dia 11 de Novembro de 1918, se tinha assinado o armistício entre as Forças Aliadas e a Alemanha, logo a Banda Democrática «saiu à rua com muito povo» para vitoriarem a queda do «Despotismo e da Tirania», como titulou o jornal “O Domingo”.

Porém, com o rolar dos dias, à alegria sobrepôs-se a preocupação porque durante dois anos, ninguém soube dizer da sorte do soldado Lúcio. As notícias eram desencontradas. Presumiram-no morto. Mas, no dia 4 de Janeiro de 1919, pelas 22H00, na estação ferroviária do Pinhal Novo, um grito emocionado –“Eh! Lúcio” – proferido em uníssono pelo grupo de consócios da sua Banda Democrática, que o aguardavam, anunciava o regresso do soldado à sua terra natal.

A Banda recebeu com júbilo o «primeiro prisioneiro de guerra nosso patrício» e, no dia 23 de Fevereiro, homenageou-o com um jantar servido pelo Hotel República, que foi animado pela actuação da filarmónica, a que se seguiu uma sessão solene e encerrou-se com um baile «que decorreu animadíssimo, dançando-se até de madrugada».

A direcção aproveitou o ensejo para descerrar «o retrato de Lúcio Lopes Júnior, com o seu fardamento de campanha de 1º Cabo Ciclista de Infantaria nº 2», enaltecendo o homenageado «como cidadão (que é) um exemplo de honestidade, de trabalho e de bondade, conjunto de qualidades que o acompanha e faz que a sua pessoa seja querida em todos os meios».

Lúcio Lopes Júnior nasceu em Aldegalega do Ribatejo, no dia 12 de Novembro de 1893, e veio a falecer no Montijo em 4 de Março de 1981.

Funileiro por devoção e funcionário público por profissão, foi uma figura exponencial da Banda Democrática, pelos vários papéis que desempenhou na vida da instituição, nomeadamente nos grupos de teatro, na comissão pró-sede e na direcção, que chegou a presidir entre 1941/3.

Como reconheceu o jornal “Gazeta do Sul”, Lúcio Lopes Júnior foi «um democrata convicto, (uma) figura geralmente estimada e considerada, quer pelos seus dotes de bom trato quer pelo seu valor social».

 
Ruky Luky