segunda-feira, 30 de julho de 2012

A TABERNA 5

Um Hino à Carne de Porco

A pergunta é inevitável: se a Taberna 5 tem a porta com o n.º 6 por que é que se chama 5?
O seu proprietário, Domingos Pinto, titular de outras tabernas, tinha por hábito numerar as suas propriedades, daí o número 5.
A taberna, que se localiza a dois passos do rio, foi, em tempo de rio vivo, local muito frequentado pelos Descarregadores de Mar e Terra (estivadores).



A taberna manteve o seu aspecto original até cerca da década de 90, altura em que foi sujeita a obras de beneficiação que lhe conferiram o perfil semelhante a qualquer regular estabelecimento de restauração.



O 5, como é popularmente conhecida, abre ao meio tarde e, nos arredores, logo se sente o delicioso cheiro da carne de porco a grelhar.
É diferente uma febra no 5? O courato tem outro sabor? A entremeada supera o que já se provou? Sim, tudo ali parece mais saboroso, e o segredo está no molho idealizado pela família que explora o estabelecimento, há mais de 60 anos.
Há quem diga que o problema do 5 é não se resistir à tentação de pedir mais uma.



Carlos Alberto, isto é, Beto é o «mestre-grelhador» que sabe o segredo do tempo, do calor e do tempero


Há, ainda, quem se recorde de entrar no 5, escolher um disco na Jukebox, encomendar uma febra, e, enquanto aguardava, partir para um jogo de matraquilhos.
O 5 foi um dos estabelecimentos mais concorridos de Montijo, sobretudo, a partir do fim da tarde, quando chegavam os barcos ao Cais dos Vapores. Quem partia passava pelo 5, quem chegava no 5 entrava.
Hoje, já não se ouve música, não há "matrecos", nem pipas de vinho, nem o fumo a envovler o balcão. Há, porém, como imagem de marca que se mantém, o inconfundível sabor dos seus grelhados e a envolvente simpatia dos seus proprietários.
Uma carcaça, um courato, ou outro produto à escolha, um copo de vinho, e o fim da tarde tem outro sabor.


Ruky Luky

quarta-feira, 25 de julho de 2012

A Primeira Igreja de Montijo

A Ermida de São Sebastião


Igreja de S. Sebastião, construção do século XIV com posteriores reconstruções.
É já um lugar-comum dizer-se que é preciso conhecer para amar e que é necessário amar para conservar.

Exceptuando a Igreja Matriz do Divino Espírito Santo, o usufruto do restante do património histórico-religioso da freguesia de Montijo está vedado à população.

Se é certo que a Igreja do Senhor Jesus da Misericórdia é propriedade privada, não menos certa é que todo o restante património é propriedade do Município de Montijo, que o não faculta ao uso regular dos munícipes.

O que nos revela a história da Igreja de S. Sebastião, tradicionalmente referida como a mais antiga da cidade e que foi sede de paróquia até à construção da Igreja do Divino Espírito Santo?
A Igreja de S. Sebastião, que é, desde a sua edificação, património do município, foi construída numa zona habitada preferencialmente por agricultores e fazendeiros, núcleo primevo de Aldeia Galega do Ribatejo, que, depois, começou a correr para junto do rio.

Nada se sabe da primitiva construção, que datará do séc. XIV.
No século XVI, a igreja sofreu várias obras de remodelação, cujo único testemunho, que chegou até aos nossos dias, é o arco triunfal, formado por colunas torsas ornamentadas com florões e cordames.
No Século XVIII, a igreja encontrava-se em ruínas.
A leitura de uma Provisão de El-rei D. José, datada de Fevereiro de 1754, dá-nos a conhecer que a «a Câmara é padroeira de uma Igreja de S. Sebastião», que «está de tal sorte danificada que por indecência do lugar [Câmara] se livrara do Santo e mais imagens para a Igreja Matriz». Mais nos diz a Provisão que as imagens ali se encontravam «há bastantes anos».
Para proceder às obras de restauro da Igreja, o «Presidente, vereadores e mais oficiais da Câmara, Nobreza e Povo de Villa de Aldegalega do Ribatejo» solicitaram ao rei que permitisse que os tributos que eram aplicados na realização da corrida anual de touros fossem investidos, durante seis anos, nas obras da igreja, porque «a câmara não tinha rendas suficientes.»
Por Indulto de D. Manuel I, a câmara municipal tinha de realizar uma corrida de touros para «divertimento do povo», na qual despendia, então, 76 mil reis com o pagamento do «curro de touros, das tronqueiras e dos tímbales».
Seis anos após a provisão real, a câmara solicitou ao rei que «fizesse mercê de prolongar a dita provisão por mais oito anos ou pelo tempo que fosse necessário para findar a obra(…).»
O rei deferiu o pedido, mas concedeu, apenas, mais seis anos.    

Em 1841, a autarquia decidiu construir o cemitério no terreno anexo à Ermida de S. Sebastião, «não só em razão da proximidade da vila e extramuros da mesma, mais ainda por ficar junto à dita Ermida, objecto muito preciso num cemitério.» A obra fuicou concluída em 1984.
Concluídas as obras, o Santo e mais imagens voltaram à Igreja e, anualmente, retomando-se a celebração, anualmente, da Festa de S. Sebastião com o patrocínio da câmara municipal.
No século XIX, o livro da Descrição Geral dos Bens Próprios do Município de Aldegalega do Ribatejo descreve-a assim:
«Ermida de S. Sebastião – e casas anexas, com seu quintal, contígua ao cemitério público, com sua sacristia, uma pequena casa de entrada e dois quartos onde outrora era a roda dos Expostos.»
A igreja é de recorte seiscentista, a fachada é de alvenaria, com portal de verga simples, telhado de duas águas com pequena cruz ao meio, óculo quadrilobado superior e duas janelas laterais gradeadas
A Ermida de S. Sebastião, popularmente conhecida como a Capela do Cemitério, serviu como capela mortuária, depois do encerramento da Igreja do Senhor Jesus da Misericórdia e da Ermida de Santo António, e antes da construção das novas capelas do cemitério.
Em 1981, foi assaltada e furtada de todo o seu património, no qual se incluía a histórica imagem de S. Sebastião. Hoje, encontra-se encerrada.

 Ruky Luky


segunda-feira, 23 de julho de 2012

Os Pátios de Montijo

1.  O Pátio (do) Maximiano

No Pátio (do) Maximiano as construções térreas convivem com os sobrados
Um pátio é um conjunto de pequenas habitações, usualmente, térreas, agrupadas e fechadas num logradouro, com serventia comum de algumas instalações, mormente, casa-de-banho, quando há, e cuja construção remonta à crescente industrialização de Montijo, iniciada no final do século XIX.

Salvo raras execepções, os pátios estão integrados na malha urbana de Montijo e oferecem condições de habitação deficientes.
As novas urbanizações, a nascente do pátio, ligaram-no à Rua de Egas Moniz. 
Com o programa PER alguns habitantes dos pátios foram alojadas em novas e condignas habitações, mas os pátios não deixaram de ser ocupados. Com a onda de imigração registada no final do século XX, passaram a alojar também muitos dos imigrantes dos países do leste europeu e do Brasil.

No final do século XX, viviam nos pátios cerca de 600 famílias.

Antena parabólica e ar condicionado ou a mudança de perfil dos moradores dos pátios.
Na Rua Miguel Bombarda, está localizado o Pátio (do) Maximiano, que, hoje, devido às novas urbanizações, passou a estar ligado também, à Rua de Egas Moniz.

Até então, só se acedia ao pátio através de um enorme portão de ferro.

Entrda original do Pátio (do) Maximiano).
  O Pátio (do) Maximiano terá sido construído no final do século XIX, princípio do século XX, e recebeu o nome do seu construtor e proprietário.



Os meus agradecimentos ao Dr. Joaquim Tapadinhas pela generosidade da partilha de conhecimentos.
Ruky Luky

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Poemas a Deus

A Procura do Caminho na Poesia

                 "Na mão de Deus, na sua mão direita”…
                                          Antero de Quental

                  
Colecção particular - década de 40 (?)
      Obstinação

À procura de Deus, andamos todos nós,
Poetas, desde quando a Poesia é Poesia…
Caminho que nos leva aonde principia
A dúvida maior, a ânsia mais atroz.
Mas sempre em nós renasce a esp’rança de que um dia
Talvez a Sua Voz responda à nossa.
                              Carlos Queiroz

Colecção particular - 1943
                  Oração da Manhã

Feliz ou infeliz, que eu me não queixe,
Senhor! Se uma vez mais a vida principia;
E, quer te esqueça, ou não, durante o dia,
Tua presença me não deixe.

Tua presença entorne claridade
No íntimo do que me parece opaco,
E alongue pela sombra o que, restrito e fraco,
Reduza eu à minha exiguidade.

Assim não possa já caluniar aquilo
Que não entenda, ou por demais julgue entender.
Assim, nos meus irmãos, não fira o próprio Ser,
E possa, ao vir a noite, adormecer tranquilo.
                          José Régio

Colecção particular - 1944

                  Falando com Deus

Só Vos conhece, Amor, quem se conhece;
Só Vos entende bem quem bem se entende;
Só quem se ofende a si, não Vos ofende,
E só Vos pode amar quem se aborrece.

Só quem se modifica em Vós floresce;
Só é Senhor de si quem se Vos rende;
Só sabe pretender quem vos pretende,
E só sobe por Vós quem por vós desce.

Quem tudo por Vós perde, tudo ganha,
Pois tudo quanto há, tudo em Vós cabe.
Ditoso quem no Vosso amor se inflama,

Pois faz troca tão alta e tão estranha!
Mas só Vos pode amar o que Vos sabe,
Só Vos pode saber o que Vos ama.
            Jerónimo Baía

Colecção particular - 1945

                     Palavras do Senhor

 Eu tenho-Te a meu lado, e não Te vejo,
- Sou como os peregrinos de Emaús!
Mas basta que Tu voltes um lampejo
P’ra que, em verdade, eu diga: - «Este é Jesus!»

Vivo a buscar-Te no maior desejo,
- Vivo a buscar-Te por atalhos nus…
E tenho-Te ao meu lado, e não Te vejo,
- Sou como os peregrinos de Emaús!

Na graça que semeias e derramas,
Meus tristes olhos limpa-mos de escamas,
P’ra que nos cegue todo o Teu fulgor!

Pois, sendo como sou argila impura,
Como é que posso erguer-me a essa altura,
Sem que venhas ajudar, Senhor!
                    António Sardinha

Colecção particular - 1944
        Salmo

Esperemos em Deus! Ele há tomado
Em suas mãos a massa inerte e fria
Da matéria impotente, e, num só dia,
Luz, movimento, acção, tudo lhe há dado.

Ele, ao mais pobre de alma, há tributado
Desvelo e amor; Ele conduz à via
Segura quem lhe foge e extravia,
Quem pela noite andava desgarrado.

E a mim, que aspiro a Ele, a mim, que O amo,
Que anseio por mais vida e maior brilho,
Há-de negar-me o termo deste anseio?

Buscou quem O não quis; e a mim que O chamo,
Há-de fugir-me, como a ingrato filho?
Ó Deus, meu pai e abrigo, espero!... eu creio.
                       Antero de Quental

Colecção particular - 1955
 Meu ser Evaporei na Lida Insana

Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de mil paixões, que me arrastava;
Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana.

De que inúmeros sóis a mente ufana
Existências falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe a Natureza escrava
Ao mal que avida em sua origem dana.

Prazeres, sócios meus e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos.

Deus, oh Deus!... Quando a morte a luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.
                   Bocage


Catequese
Reza comigo, se te queres salvar.
Deus é pura poesia.
E o poema uma humilde petição
No templo sacrossanto da eternidade.
Reza comigo, a ler-me e a memorar
Os versos que mais possam alargar
O teu entendimento
                                                  De ti, do mundo e do negro inferno
De cada hora.
Purificada neles, terás então
No coração
A paz aliviada que te falta agora.
   Miguel Torga




quarta-feira, 18 de julho de 2012

O Mistério do Jarro de Vidro

A Quarta- Feira Negra da Assembleia Municipal de Montijo

Na história do poder local, em Montijo, nunca se tinha registado um caso assim.
O que se passou, naquela noite de 15 de Junho de 2011, na Assembleia Municipal de Montijo?
Por que é que o ecológico jarro de água foi substituído, depois daquela noite, por uma garrafa de plástico?
Passou-se um ano e o silêncio branqueador parece querer reinar.
Para memória futura, aqui se registam excertos das declarações de alguns dos principais participantes naquela Assembleia, com o intuito de se descortinar o mistério…

Amândio de Carvalho, presidente da Assembleia Municipal: «Gostaria de lamentar alguns factos que se passaram na última quarta-feira da mesma forma que gostaria de apresentar desculpas por tudo aquilo que se passou. Como se costuma dizer: “foi mau de mais para ser verdade”.

Emanuel Costa, líder da bancada do Partido Socialista: «Assistimos a mais um espetáculo provocado pelo representante do PSD, Alberto Fernandes. Mais uma vez Alberto Fernandes teve uma atuação reveladora do que é. Tentativa de assassinato de carácter pessoal do Vice-presidente da Câmara Municipal seguida de provocações físicas à presidente da Câmara, aos vereadores do partido socialista e a todos os membros do PS desta Assembleia. Entre outras expressões proferiu de forma grosseira utilizando um tom e um nível de profundo ódio: “não tem ética, incompetente, desonesto, sem carácter, que se aproveita do erário público para si e para os seus, tachista, falta de verticalidade, mentiroso, sem escrúpulos, autarca que terá lugar no caixote do lixo da classe política”.»

Avelino Antunes, líder da bancada da CDU: «Manifestamos o nosso mais profundo desagrado [pelo que se passou nesta sala], que á algo que não se pode repetir. Os insultos pessoais, os ataques pessoais não devem por quem quer que seja, [ser] trazidos para esta sala.»

Maria Amélia Antunes, presidente da Câmara Municipal de Montijo: «O meu repúdio pelos acontecimentos da última quarta-feira. Nunca assisti a uma cena tão ignóbil. Numa declaração simples de voto, sobre uma ata, aproveitar [Alberto Fernandes] essa declaração para insultar, vilipendiar, fazer um ataque pessoal como eu nunca assisti a nenhum autarca. Algum cidadão de Montijo acredita, que aquilo que se passou, e que o PSD veiculou nos jornais, na comunicação social, não teve um fundamento, uma responsabilidade [?]»

Nuno Canta, vice-presidente da Câmara Municipal: «Eu fui objeto de um assassinato político, aqui nesta sala. Nós fomos aqui insultados, injuriados e ofendidos, não contente com a situação o deputado Alberto Fernandes, na altura, levanta-se do seu lugar e faz ameaças físicas, levanta-se e diz: “Quantos são, [?] quem vem cá [?]. ” E nós na altura num impulso porque é assim que as coisas acontecem, por ameaças físicas, eu digo senhores deputados, por aí não.
Eu queria deixar aqui o meu ato mais irrefletido, tentei junto do senhor deputado tirar algumas explicações e gerou-se uma confusão, mas o que é de fato é que fomos aqui provocados, fomos aqui ofendidos e fomos aqui injuriados
Eu reconheço que durante o insulto e da ofensa eu mantive-me calmo, impávido e sereno.»

A senhora Presidente [da Câmara] disse “o senhor é um bandalho”. O senhor Deputado Alberto Fernandes disse “bandalho és tu”.  [Acta da sessão da Assembleia Municpal de Montijo, de 15 de Junho de 2011.]
José Mata Justo, líder da bancada do PSD: «No dia 15 de Junho de 2011 nesta Assembleia ocorreu um facto político que não podemos branquear. As manifestações de violência estiveram ao rubro pelo Vereador Nuno Canta ao atirar um jarro de água de vidro já visivelmente partido ao Deputado Municipal Alberto Fernandes. Assistimos sem dúvida a um registo escrito de palavras duras de ambas as partes, lamentamos que se chegue à violência pelo arremesso de um jarro de vidro em direção ao Deputado Alberto Fernandes por parte do Vereador Nuno Canta.»

Ricardo Caçoila, único representante do Bloco de Esquerda: «O que se passou na semana passada foi inqualificável do ponto de vista político. Independentemente de quem provocou, quem foi provocado, de quem reagiu, provocou algo que na vida democrática nunca deve acontecer.»

Alfredo Rodrigues, deputado do CDS: «Olho aqui para a frente e no lugar de ver um jarro de vidro, vejo uma garrafa de plástico, há uma coisa que posso dizer e não me engano, isto deve-se a um erro político, do meu caro Engenheiro Canta, agora a minha dúvida podia ser a seguinte: Será um erro, porque a qualidade da água do município não tem condições? Não, é um erro porque o Senhor Vereador Nuno Canta atirou um jarro para cima da bancada do PSD e do CDS. Isto é que não pode ser branqueado. O ponto fulcral da questão, que é aquilo que devia ser discutido, é que temos um vereador, que é uma pessoa correta, mas cometeu um erro grave, que foi ter pegado num jarro de vidro e ter atirado para cima da bancada do PSD.

Os acontecimentos segundo a Acta de 15 de Junho de 2011 [Excerto]

«O Senhor Deputado Alberto Fernandes estava a ler uma Declaração de voto. A declaração visava directamente o senhor Vereador Nuno Canta, referindo que “não tem ética, mentiroso, incompetente, desonesto, sem carácter, sem escrúpulos, falta de verticalidade, que se aproveita do erário público para si e para os seus, tachista, autarca que terá lugar no caixote do lixo da classe política”.
O senhor Presidente da Assembleia Municipal tentou interromper a intervenção do senhor Deputado Municipal Alberto Fernandes, que não respeitou o senhor Presidente da Assembleia, continuando a ler a declaração de voto. A senhora Presidente da Câmara disse “o senhor cale-se”. O senhor Deputado Alberto Fernandes continuou no uso da palavra, elevando cada vez mais alto a sua voz. A senhora Presidente disse “o senhor é um bandalho”. O senhor Deputado Alberto Fernandes disse “bandalho és tu”, levantou-se, batendo com as mãos no peito, desafiou fisicamente a senhora Presidente da Câmara, os restantes membros do executivo e da Assembleia, dizendo “Quantas da tua laia? Quantos são? Venham Todos?”. O senhor Vereador Nuno Canta levantou-se de forma intempestiva tentou retirar satisfações junto do senhor Deputado Alberto Fernandes, empurrando uma mesa, fazendo cair um jarro e copos de vidro que se estilhaçaram, resultando ferimentos ligeiros e superficiais nos deputados Alberto Fernandes e Marília Reimão e nos senhores Vereadores Nuno Canta e Nuno Ferrão.»          

 Excertos das Actas da Assembleia Municpal - 15.06.2011 e 20.06.2011 

Ruky Luky

terça-feira, 17 de julho de 2012

Bairros Populares de Montijo

I – O Bairro Serrano
O Bairro abre-se num pequeno largo para receber quem o alcança  a partir da Estação da CP,
 Qual a génese do Bairro Serrano?
Torna-se, hoje, definir os contornos históricos do Bairro Serrano. Na sua génese, começou por ocupar a quinta dos Frades da Graça, que se estendia do Convento, actual Esquadra da PSP, até ao Rio Tejo.
Zona eminentemente rural, de quintas e de cortes, deu lugar a um bairro popular fruto da industrialização de Montijo.

Algumas travessas, a lembrar os pátios, recordam o perfil operário do bairro.
 No século XVIII, encontramos referências ao Corte da Barrosa, mas, no século XIX, é o topónimo Bairro Serrano que identifica toda aquela área.
Naquele século, ainda não estava construída a Estada Nova [Rua José Joaquim Marques], mas o núcleo central do bairro já apresentava uma fisionomia muito semelhante àquela que hoje apresenta.

Localização do Bairro Serrano
Em 1898, a edilidade resolveu identificar as ruas do Bairro Serrano, dando-lhes os seguintes topónimos: Rua da Praça de Touros [actual Rua Luís Calado Nunes]; Travessa da Praça de Touros [mantém-se com o mesmo nome, e liga a Rua Luís Calado Nunes à R. José Ferreira Pio]; Rua do Quartel [passava pela actual Esquadra da PSP]; R. Formosa [actual Rua Central?]; e Rua dos Quintais [identificada, então, como “a última rua do lado nascente”].

Outro aspecto do casario térreo do bairro.
Hoje, o Bairro Serrano está limitado, grosso modo, a Norte, pela Rua José Joaquim Marques [Estrada Nova]; a Sul, pelo Rio Tejo; a Oeste, pelo Bairro da Calçada; e a Este, pelo Bairro da Barrosa.
As ruas do Bairro Serrano, ainda marcadas por edificações térreas e modestas, eram vivificadas pela intensa azáfama de pequenas oficinas mecânicas, de serralharia ou de carpintaria, pelo pequeno comércio, e por outros ofícios exemplarmente exercidos por experimentados mestres, mas que, há poucos anos a esta parte, muitas se encerraram, dando lugar a ruas vazias e tristes, e deixando o bairro entregue a uma população envelhecida.

O pequeno comércio vai resistindo, sabe-se lá com que sacrifícios...

Em homenagem à laboriosa população do Bairro Serrano, permitam-me que evoque a memória de D.ª Julieta, carinhosamente conhecida por "Julieta dos Bolos". Mestra entre mestres, das suas mãos saíam autênticas obras de arte cinzeladas sobre a massa. Num aniversário, havia, pelo menos, três momentos altos - o espanto pela obra-de-arte, o intenso e demorado prazer pelo sabor do bolo e a alegria contagiante de o partilhar. Com arte, D.ª Julieta alegrou a casa de várias gerações de montijenses. As mãos de um anjo abençoaram com doçura a casa dos montijenses. Os artistas - todos os artistas - merecem ser homenageados. Desculpem-me a singeleza da homenagem.







 Ruky Luky








sábado, 14 de julho de 2012

Pista para bicicletas “sobre carris”, em Montijo?

A Estação da CP em Montijo
[A Estação da minha Vergonha]

Largo da Estação, 13 de Julho de 2012.
Em silêncio fotografei a Estação da CP (REFER), em Montijo, no passado dia 13 de Julho de 2012.

A área está abandonada. Depois do almoço não há, ali, qualquer movimento. Um velho homem, que vive por perto, disse-me: «Dá vontade de chorar, sobretudo, eu que vi o movimento desta estação e deste cais….». Seguiu o seu caminho e eu ali fiquei, conversando com a minha máquina.

O que nos revelam as fotografias? Incúria? Irresponsabilidade? Desleixo? Classifique o leitor.

Por que se desperdiçam instalações que poderiam (poderão) servir para satisfazer mil e uma necessidades sociais? O público delas não necessita? Venda-as ao privado. Mas estime-se e salvaguarde-se o nosso património.

Em 14 de Janeiro de 2000, já lá vão doze anos e seis meses, a Câmara Municipal de Montijo e a Rede Ferroviária Nacional (REFER) assinaram um protocolo visando a utilização do edifício.
Como se chegou a esta situação? A Câmara Municipal de Montijo e a REFER que responda(m). Volvamos, contudo, ao ano de 2000.

Em 14 de Janeiro de 2000, já lá vão doze anos e seis meses, a Câmara Municipal de Montijo e a Rede Ferroviária Nacional (REFER) assinaram um protocolo, mediante o qual a REFER autorizava a Câmara Municipal de Montijo a utilizar, a título precário e por sua conta e risco, o terreno de domínio ferroviário (ramal ferroviário desactivado em meados da década de oitenta), localizado entre o apeadeiro da Jardia e a estação de Montijo. Por sua vez, a autarquia comprometeu-se em construir uma pista para bicicletas e um passeio pedonal, ao longo de todo o percurso, a implementar uma zona arborizada entre o ramal e a estrada nacional, ao mesmo tempo que criaria arranjos paisagísticos junto aos apeadeiros da Jardia, Sarilhos e Estação de Montijo. A Câmara Municipal comprometeu-se também em recuperar os edifícios dos respectivos apeadeiros e da estação, mantendo a sua traça arquitectónica.

Estação da CP de Montijo. Aspecto das casas de banho.
Segundo notícia da época «a execução deste plano de recuperação e utilização do espaço da antiga linha de caminho-de-ferro, por parte da autarquia, realça uma estratégia completamente oposta aquela que era defendida pelo anterior executivo camarário [CDU], e que pretendia para aquela zona a construção de uma estrada de acesso ao centro da cidade de Montijo.»

Aspecto da gare.

A Câmara Municipal comprometeu-se também em recuperar os edifícios dos respectivos apeadeiros e da estação, mantendo a sua traça arquitectónica.


Assinado o protocolo, a Câmara Municpal de Montijo retirou os carris e... desistiu. Porquê?

Pelos carris, que já cá não estão, durante cerca de oitenta anos, passaram comboios, mas nunca passaram ciclistas ou peões em agradáveis passeisos. Quem responde?
Ruky Luky

terça-feira, 10 de julho de 2012

Praia Fluvial em Montijo?

Praia Fluvial em Montijo?

Apesar da propaganda oficial, a denominada Zona Ribeirinha revelou-se um flop e a praia fluvial não passou de um sonho numa noite de Verão, e os sonhos esfumam-se...

A criação de uma praia fluvial foi uma das intenções da actual presidente da Câmara Municipal de Montijo, Maria Amélia Antunes, apresentada, a par da requalificação da zona ribeirinha, como «uma nova ambição turística para Montijo.»
Na mesma ocasião, Maria Amélia Antunes prometeu apostar em recursos humanos qualificados concretizando os projectos de «um centro de incubadora de empresas e um pólo tecnológico.»

Nas declarações que então prestou, a edil garantiu que «com as freguesias, independentemente da cor partidária da presidência, procurarei colaborar com lealdade transparência, responsabilidade e rigor, tendo sempre presente a defesa do interesse público.»

 Sete anos volvidos, a freguesia de Sarilhos Grandes [CDU] é a única freguesia que não tem protocolo de delegação de competências assinado com a Câmara Municipal de Montijo, o centro de incubadora de empresas não se vislumbra, o pólo tecnológico também não e, quanto à praia fluvial, o melhor mesmo é continuarmos a deslocarmo-nos às freguesias vizinhas do Samouco e de Alcochete, porque, em Montijo, não passou de um sonho numa noite de Verão.

 Ruky Luky.








segunda-feira, 2 de julho de 2012

De Aldeia Galega do Ribatejo a Montijo

De Aldeia Galega do Ribatejo a Montijo

Aldeia Galega do Ribatejo [Montijo] - Aguarela de Pier Maria Baldi, pintor e arquitecto florentino, que acompanhou o príncipe Cosme de Médicis, na viagem que empreendeu pela Europa, em 1668/1669, ilustrando os principais locais pelos quais passou a comitiva. A aguarela está reproduzda no livro " Viaje de Cosme de Medicis por Espana e Portugal (1668-1669)".
Aldeia Galega do Ribatejo resultou da fusão de três núcleos populacionais distintos: Aldeia Velha, Aldeia Galega e Aldeia da Posta.
O primeiro núcleo, Aldeia Velha, localizado a nascente da povoação, foi habitado por fazendeiros e trabalhadores do campo e ali foi edificada a primeira paróquia, a de S. Sebastião (Igreja do Cemitério).

A Aldeia da Posta, a poente, foi constituída, sobretudo, por empregados do Correio-Mor e por pessoas que viviam com os serviços da Posta.

A Aldeia Galega, localizada ao centro, foi a zona preferida para a edificação de estalagens e, consequentemente, onde o comércio se instalou.

 Na sua origem Aldeia Galega foi essencialmente uma terra de camponeses que, nos finais do século XV, vê a sua população ”correr em excesso para junto do porto”. Devido a este fenómeno, a ponte nova e a doca acabaram por substituir a estacada do Correio-Mor, situada então na Aldeia da Posta.

No século XVI, já estava construída a Igreja Matriz do Divino Espírito Santo e o núcleo populacional mais importante instalado numa área circunscrita ao «rossyo pequeno [largo da Igreja do Divino Espírito Santo], à rua Direita e ao Largo da Misericórdia.

O Largo da Misericórdia, aqui numa foto do início do século XX, foi o primeiro centro cívico de Montijo. Além da Igreja, neste largo, estavam as "casas da câmara", o poço principal da vila e, embora não haja fontes que o provem, há quem admita que ali foi erigido o Pelourinho.
    O assoreamento da Cala de Alhos Vedros determinou que a posição geoestratégica de Aldeia Galega se tornasse crucial como ponto de transbordo entre a capital do reino e as terras alentejanas.

De tal forma Aldeia Galega ganhou importância que, em 1533, o Correio-Mor do Reino, Luís Afonso, a escolheu para sede da Mala Posta, que demandava terras estrangeiras.

A História é madrasta para as classes sociais sem recursos económicos ou sem intervenção social protagonizada. Por isso, são escassas as referências à classe piscatória da Vila de Aldeia Galega do Ribatejo.

A existência de pescadores, contemporânea com o aparecimento da vila, não contradiz a afirmação já proferida que “ na sua origem Aldeia Galega foi essencialmente uma terra de camponeses (...) ”, porque é a partir do núcleo dos fazendeiros que a vila se desenvolve, recebendo, posteriormente o forte contributo dos mareantes.

Na Igreja Matriz há uma capela de invocação a Nossa Senhora da Conceição onde está gravada a inscrição: “Esta capela de madre Deos fizerão hos mariantes desta vila 1575”. Do lado da epístola encontra-se outra de invocação a Nossa Senhora da Purificação com o letreiro: “Esta capela de Nossa Señora da Purificação estituíram os omeis trabalhadores desta vila ano de 1607 ”. Os pescadores possuem um pequeno altar onde jaz a imagem de S. Pedro. “Mareantes e Omeis Trabalhadores” ajudaram a edificar a igreja assim como já o tinham feito com a vila.

No final do século XVI, princípios do século XVII, a vila de Aldeia Galega do Ribatejo era habitada essencialmente por “ Omeis trabalhadores”, mareantes, pescadores, clero e nobreza, representada por alguns cavaleiros do reino, e recebia quotidianamente uma considerável população flutuante que procurava alcançar Lisboa ou terras Alentejanas ou estrangeiras. A terra era pobre e só o tráfego fluvial a animava e “ por ser escalla e passagem para a banda do Alentejo he mais povoada que não por abundância de sítio”. Dividia-se, então, por dois núcleos: Aldeia Galega e Aldeia Posta, onde se edificou o bairro dos pescadores no século XVIII, isolado quer da vila quer do convento, este edificado no século XVII.

O bairro foi-se dispondo “ por várias artérias regulares, cortadas por travessas do mesmo tipo e era constituído por casario humilde, térreo ou de andar, na vizinhança de viveiros de peixe, abrigados por diques de terra batida (...)”. 

Esta avenida, hoje, dos Pescadores, deve o seu nome à primeira Comissão das Festas Populares de S. Pedro e a todo o movimento que gerou em torno dos pescadores e da sua cultura. Numa perspectiva histórica, e em termos relativos, é uma das avenidas mais recentes de Aldegalegga do Ribatejo. Teve nome de santo e de políticos, mas, na segunda metade do século XX, passou a denominar-se Avenida dos Pescadores. 
A propósito da importância dos pescadores e dos trabalhadores rurais na edificação da vila, o ditado ensina que : «Nesta terra, quem não rema, já remou; quem não cava, já cavou. Se não foi o pai, foi o avô.»
    Aldeia Galega do Ribatejo integrava, no séc. XIII, o concelho do Ribatejo, grémio municipal rudimentar que era constituído, no dizer de Virgínia Rau, por “uma poeira de lugarejos”, que tinham a sede paroquial em Santa Maria de Sabonha.

A vila, que pertenceu ao termo de Alhos Vedros, recebeu foral doado por D. Manuel I, em 15 de Setembro de 1514 e, em 17 de Janeiro do ano seguinte, recebeu novo foral conjunto com Alcochete.

Segundo Joaquim Carreira Tapadinhas, “poderíamos concluir (...) que o foral de D. Manuel seria um foral novo e não o primitivo do concelho. Essa conclusão seria apressada e só o aparecimento do documento ou cópia credível poderão fazer fé. Contudo não é descabido pensar que, embora de forma rudimentar, Aldeia Galega (nos séculos XIV e XV) tinha estruturas de concelho”.

O concelho ganhou autonomia plena quando estabeleceu um acordo com o de Alcochete, em 27 de Janeiro de 1559, para “separar jurisdições e ofícios”.

Aldeia Galega do Ribatejo, vila que se formou pela fusão de três núcleos populacionais distintos, Aldeia Velha, Aldeia Galega e Aldeia da Posta, constituía, no século XVI, com “hua aldea que se chama çarilhos [Sarilhos Grandes]” e “hua povoação que se chama Póvoa [Base Aérea]”, o concelho com o mesmo nome.

Até 1833, data da remodelação da divisão territorial do país, o concelho de Aldeia Galega do Ribatejo era constituído pelas Freguesias do Divino Espírito Santo e de S. Jorge (Sarilhos Grandes).

Extinto o concelho de Canha, em 1838, integrou-se no concelho de Aldeia Galega com a categoria de freguesia, embora mantendo o título de vila, o mesmo acontecendo, em 1895, quando se extinguiram os concelhos da Moita e de Alcochete. Com a restauração destes concelhos, três anos mais tarde, o concelho de Aldeia Galega do Ribatejo passou a ser constituído pelas freguesias do Divino Espírito Santo, de S. Jorge (Sarilhos Grandes) e de N.ª Sr.ª de Oliveira (Canha).

Actualmente, o concelho, que passou a denominar-se Montijo, em 6 de Junho de 1930, apresenta uma descontinuidade geográfica, sendo constituída a parte Este pelas freguesias de Canha, St.º Isidro de Pegões e Pegões e a parte Oeste pelas freguesias do Montijo, Sarilhos Grandes, Alto Estanqueiro/Jardia, Afonsoeiro e Atalaia.

O “Título da Villa d’Aldea Galega”, mandado elaborar por D. João II, em 1532, registou que, “tem esta villa cento e seys moradores dos quaes sam vimte e nove viúvas e três molheres solteyras e tres crellegos”, número que não é, hoje, pacificamente aceite.

O Correio-mór, Luís Afonso, estabeleceu, em 1533, a Posta Principal, ao sul do Tejo, em Aldeia Galega, depois de ter conseguido de D. João III a mercê régia que lhe permitiu que a vasta jardia ao tempo deserta fosse atravessada pelo aguilhão para serviço exclusivo do correio-mór.

A Posta deu um novo impulso ao desenvolvimento da vila, que passou a receber o concurso das mais desvairadas gentes.

Como refere Ruy de Mendonça, «claríssimo é que só o extraordinário movimento causado pelo pessoal, - como postilhões, boleeiros e mais empregados -, seria suficiente para aumentar a população da terra.
    Se nos lembrarmos que passou a haver uma população flutuante, diariamente a estacionar na vila, encontraremos perfeita compreensão dos motivos que levaram ao crescimento rápido do seu comércio e ao desenvolvimento, em paralelo, de todas as actividades da povoação.»

A Câmara Municipal tinha as suas casas no “Rosyo da villa”, actual Praça 1º Maio, e pelas ruas empoeiradas de Aldeia Galega cruzavam-se os representantes da nobreza e do clero, o povo e muitos escravos, confundindo-se aqueles nos divertimentos taurinos mandados organizar por D. Manuel.

O rio era também a fonte de energia que fazia mover as “moendas de pam” e dos portos de Aldeia Galega e do Montijo partiam as barcas carregadas de sal, vinho, cereais e madeiras.

Entre Aldeia Galega e Almada, haveria perto de sessenta moinhos de maré e, segundo Virgínia Rau, «no ano de 1512, foram computados em 79 marinhas, com um total de 11052 talhos, as existentes tanto na ribeira “da ffooz de Sabonha”, como na ribeira de Aldeia Galega.»

Na segunda metade do século XVI, já estava instituída a Santa Casa da Misericórdia e os fiéis cultuavam nas Igrejas de S. Sebastião, da Misericórdia ou na do Divino Espírito Santo, todas elas construídas com o empenho e a devoção dos aldeanos.


Brasão de Aldegalega do Ribatejo

      Vão escasseando as notícias acerca de Aldeia Galega do Ribatejo, embora se saiba que, em 1709, a vila tinha «médico, boticário e cirurgião; um caes de cantaria que era dos melhores do Riba-Tejo; dezoito barcos; e sete padeiros. O concelho rendia setecentos mil reis por ano; tinha juiz de fora desde 1569; um prior, dois beneficiados e um tesoureiro; cinco moinhos de água, além de um que dividia o termo de Aldeia Galega do termo de Alhos Vedros, com quatro engenhos, dois de um termo e dois do outro.
    Donde se conclui, que esta villa prosperou bastante durante os séculos XVI e XVII», como registou José de Sousa Rama.

Contudo, não é ridente a situação da vila, em meados do século XIX, com deixa transparecer a carta, de 17 de Outubro de 1850, do Administrador do Concelho dirigida à Rainha, Dª Maria II:

«Senhora

Vossa Majestade não deixará de atender que este cais é um daqueles onde continuamente embarcam e desembarcam Artilharia Cavalaria e todo o género de munições e equipamentos para os Corpos da Província do Alentejo e do Algarve, assim como os imensos produtos destas duas Províncias, que tantos direitos depositam nos Cofres das Alfândegas e que por conseguinte é de absoluta necessidade existir um estado sólido e cómodo, o que será impossível se do pouco rendimento do dito imposto se deduzir a Terça parte a favor da Nação, que desfruta em grande escala os seus serviços: e isto num concelho, que na falta de Bens próprios, geme debaixo de um deficit superior a 2.000$000 e não tem uma fonte pública nem calçadas nem Cadeia segura e própria para uma comarca nem mesmo um passeio recreativo ou outro qualquer de utilidade e embelezamento da vila achando-se até os próprios templos ameaçando eminente ruína…»

 Primitivamente, a terra foi baptizada com o nome de “Aldeia Galega do Ribatejo”, como testemunham documentos do século XIV.

Polemiza-se sobre a origem do nome, dividindo-se as opiniões. Uma corrente sustenta que o nome Galega resulta do facto de um dos primeiros núcleos de habitantes, que ali se instalou no reinado de D. Afonso Henriques, ser constituído por gauleses (Gália). Outros autores defendem que se chamou de Galega atendendo aos terrenos estéreis que caracterizavam o solo da vila. Terra Galega seria aquela com terrenos estéreis e não a habitada por gauleses.

Por outro lado, o povo, sempre romântico, atribui-lhe a origem a uma estalajadeira galega, de seu nome Alda, que se instalou na vila e se apaixonou por um pescador. Aldegalega, corruptela de Aldeia Galega, teria resultado, segundo a lenda, da junção das palavras Alda e galega. «Vamos à da Alda, a Galega?».

Entre a lenda e a história se embalou o nome de Aldeia Galega ortografado, ao longo do tempo, ao sabor da inspiração: Alda Gallega, Aldea Gallega, Aldegalega, Aldaguallega do Ribatejo, Aldegalega, Dalda Gualega ou Aldeia Gallega do Ribatejo, como registou o Foral outorgado por D. Manuel I, em 15 de Setembro de 1514.

E tal era a confusão de nomes que, em 2 de Fevereiro de 1879, a Câmara lhe fixou o nome em Aldegalega.

Porém, em 1881, os ilustres cidadãos de Aldegalega protestaram contra o nome: «Basta de sarcasmos! Chamar Galega a uma povoação de sete mil verdadeiros portugueses, parece-nos um verdadeiro absurdo.» Pediram, então, a El-Rei D. Luís que a terra se passasse a chamar Alda.

Alda? Como não havia consenso à volta de um nome, pois a História regista outras propostas, Linda Aurora do Ribatejo, Vila Flor, Vila Maior do Ribatejo, Aldegalega Lusitânia, Nova Lusitânia, Lusitânia e Vila Lusa, a localidade continuou a chamar-se Aldegalega ou Aldeia Galega do Ribatejo.

Em 1930, Aldeia Galega do Ribatejo era já uma pujante vila e correspondendo aos anseios dos seus moradores, Carlos Hidalgo Gomes de Loureiro, Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Aldeia Galega do Ribatejo, requereu, no dia 5 de Fevereiro, a mudança de nome para Montijo, nome ancestral da península e do antigo porto.

A proposta foi sancionada pelo Decreto nº. 18434 e a partir do dia 6 de Junho de 1930, a vila e o concelho de Aldeia Galega do Ribatejo passaram a denominar-se Montijo.

 Ruky Luky