quinta-feira, 28 de junho de 2012

CONVITE

CONVITE
Durante as Festas Populares de S. Pedro, ao passear pela Avenidados Pescadores, olhe para ela com olhos de descoberta e veja como, talvez, durante anos e anos a palmilhou sem nunca ter logrado seduzir-se pelos seus pormenores.
Sem exaustão, porque não lhe queremos tirar o prazer da descoberta, aqui se registam alguns apontamentos captados pela velha e sempre fiel objectiva.












Manuela Cavaco, a nossa acarinhada fadista, vive na Avenida dos Pescadores. Junte-se então o fado a S. Pedro, clame-se pelo Cancioneiro Popular e remate-se esta mensagem com a mensagem que o fado tem:
 
Chorai fadistas, chorai,
 Que uma fadista morreu.
                     Hoje mesmo faz um ano
                     Que a Severa faleceu.

            Até o próprio S. Pedro
                  À porta do céu sentado,
                  Ao ver entrar a Severa
                  Bateu e cantou o fado.
            

           Ruki Luki                                        





sexta-feira, 22 de junho de 2012

Festas de S. Pedro e Festas Populares de S. Pedro - Montijo

Como tudo começou…

Imagem de S. Pedro, padroeiro dos pescadores, que se venera na Igreja do Divino Espírito Santo
1.     A Festa dos Pescadores

São escassas as referências à classe piscatória da Vila de Aldeia Galega do Ribatejo/Montijo.
Quando, no dia 20 de Julho de 1512, D. Jorge, Mestre da Ordem de Santiago, visitou a Igreja do Divino Espírito Santo, registou a existência de um altar de S. Pedro, na ombreira de uma das capelas.
No século XVI, já estava instituída a Confraria dos Pescadores, que, além da ajuda e assistência que prestava aos seus confrades, tinha entre as suas obrigações a realização da festa anual do seu patrono, S. Pedro, no dia 29 de Junho, e a festa promovida pelo Círio dos Pescadores na Ermida de Nossa Senhora da Atalaia.

Tradicionalmente os pescadores levam o andor descalços.


 
 A Guarda Nacional Republicana abrilhanta a procissão


Benção do rio


 Para assinalar o dia do patrono, a Confraria dos Pescadores procedia à eleição do juiz, do tesoureiro e de mais festeiros que, no ano seguinte, realizariam os festejos com o produto das quotas que os pescadores voluntariamente destinavam em cada cesto e dos lucros de cada bote de pescas e demais esmolas obtidas única e exclusivamente entre a classe piscatória.
Segundo a visitação dos freires da Ordem de Santiago, feita em 2 de Novembro de 1607, os pescadores tinham mealheiros nos seus barcos nos quais recolhiam mensalmente as dádivas para a confraria, que as destinavam para custear a festa e, um terço delas, para a conservação do altar de S. Pedro.

Aspecto da decoração da Avenida dos Pescadores - 1952
Actual Avenida 25 de Abril

 As festas de S. Pedro foram, na sua génese, uma manifestação corporativa, emanação da classe piscatória, pobre e laboriosa, que parava dois dias por ano para comemorar os seus santos padroeiros, S. Pedro e S. Marçal, nos dias 29 e 30 de Junho, no espaço geográfico do seu bairro.

As festas celebravam-se com manifestações religiosas e profanas, celebração de Eucaristia, procissão, arraial, lavagem e queima do batel, que, segundo o jornal “Domingo”, de 29 de Junho de 1902, «persiste na festa dos nossos dias, como manifestação estereotipada, sem a chama nem a alma nem a magia de outrora.»
Extinta a Confraria, foram os donos das embarcações, arrais ou os pescadores mais afortunados, e mais tarde a Sociedade Cooperativa União Piscatória, que passaram a organizar as festas em honra de S. Pedro.
Sociedade Cooperativa União Piscatória - SCUP

S. Pedro e a SCUP
A última notícia das Festas de S. Pedro, organizadas pelos pescadores, foi divulgada na “Gazeta do Sul”, em 9 de Julho de 1950:
«A exemplo dos anos anteriores, e como é da tradição no Bairro dos Pescadores, realizaram-se ali, nas noites e dias de S. Pedro e S. Marçal, 29 e 30 de Junho, as festas em honra destes Santos Populares.
Cantou-se e dançou-se animadamente, houve a tradicionalíssima e característica “lavagem” na Quinta do Saldanha no dia 30 (S. Marçal), a arrematação das bandeiras e o imprescindível e lauto almoço (...) ”.

2.     Humberto de Sousa e o Apogeu das Festas Populares de S. Pedro

Primeira Comissão das Festas Populares de S. Pedro: José Vintém, Luís Onofre e José Pinto (em baixo, da esq./dt.); Francisco Neto, Humberto de Sousa, Joaquim Moreira e Augusto Mendes (centro); Mário Vicente, Valentim Caria e Armando Marcelino.
Naquele ano de 1950, os pescadores António João de Sousa e António Cruz resolveram animar o dia de S. Marçal, como era tradição no seu bairro, com um baile popular junto da taberna de António de Sousa, depois do almoço de confraternização. No auge da alegria prometeram de viva voz que, no ano seguinte, se fossem vivos, enfeitariam aquela área e voltariam a assinalar o S. Pedro ainda mais animadamente.

A festa atraiu a atenção de um vizinho muito especial, o maestro Humberto de Sousa, que logo propôs àqueles pescadores que se unissem para que se pudesse organizar os festejos do próximo ano, que se projectassem além das fronteiras do bairro.

 Humberto de Sousa e os membros da Marcha dos Pescadores começaram logo os preparativos. No dia 16 de Maio, oficiavam ao Presidente da Câmara informando que «é intenção da comissão Administrativa da Marcha Popular do Bairro dos Pescadores de Montijo levar a efeito no próximo mês de Junho, as FESTAS DE S. PEDRO, a realizar no Bairro dos Pescadores (...). Para isso, têm os habitantes do referido bairro, contribuído semanalmente, do que resultou conseguir-se arrecadar em cofre, cerca de 16 contos.» Cada habitante contribuíra com 10 tostões por semana. A Comissão solicitava à Câmara Municipal do Montijo um «valioso auxílio», que se traduzia na assunção das despesas com o consumo de energia eléctrica e na concessão de um subsídio monetário, assim como na possibilidade da Comissão de Festas explorar o arrendamento do terrado.

Batalha das Flores

Batalha das Flores - Representação do Ateneu Popular de Montijo
Participantes na Batalha das Flores

Carro alegórico da Batalha das Flores
Na reunião de 29, do mesmo mês, a Câmara Municipal deliberou «colaborar nas festas populares organizadas pela Marcha do Bairro dos Pescadores.»

As primeiras Festas Populares de S. Pedro aproveitaram então as tradições das festas anteriores a que aditaram a Bênção aos Barcos e ao Rio e a Queima do Batel, cerimónia esta que não se realizava há cerca de 50 anos. Não houve manifestações tauromáquicas.
Todo o Grupo Cénico Montijense, onde se destacavam, entre outras, as figuras de Humberto de Sousa José Joaquim Caria e Ribeiro Vintém, empenhou-se não só em dar brilho às festas como em obter receitas para a prossecução das mesmas.
Além dos espectáculos que realizou, a Comissão de Festas reatou a velha tradição de distribuir mealheiros pelos pescadores e pelos comerciantes e, entre outras iniciativas, tornaram-se famosos os bailes organizados no logradouro do Mercado Municipal, que se popularizaram com o nome de “Baile da Couve”. Outra fonte de receita resultava da taxa de $50 aplicada aos bilhetes do cinema, enquanto funcionou no velho barracão, passando a contribuição a ser voluntária após a inauguração do novo Cinema Teatro Joaquim de Almeida.

1.º Prémio do Concurso de Janelas e Varandas Engalanadas 

Concurso de Janelas e Varandas Engalanadas

Timidamente, as Festas Populares de S. Pedro organizadas por uma Comissão da Marcha Popular do Bairro dos Pescadores e patrocinadas pela Câmara Municipal do Montijo, apresentaram-se em 1951.
 A concretização das Festas Populares de S. Pedro satisfez, por um lado, as aspirações da população do Montijo, «pois não fazia sentido que se passassem anos seguidos sem que se realizassem festas à altura das tradições locais» e, por outro, os desígnios políticos do então Presidente da Câmara, José da Silva Leite, fortemente empenhado num projecto de desenvolvimento e divulgação do concelho.
 Sob a direcção de Humberto de Sousa as Festas Populares de S. Pedro foram tomando crescente importância ao ponto de passarem a ser consideradas as mais importantes do Sul do País.
A partir de 1952, o dia 29 de Junho, Dia de S. Pedro, passou a ser considerado o feriado municipal.

Igreja do Divino Espírito Santo
Rua Direita/Almirante Cândido dos Reis
A realização das Festas Populares de S. Pedro ultrapassou todas as expectativas e, em 1953, Humberto de Sousa já sugeria que se passassem a chamar «Festas do Montijo».
 No mesmo sentido se pronunciou o semanário Gazeta do Sul, de Montijo, no ano seguinte, defendendo que «a designação de Festas Populares de S. Pedro, nome que anda ligado à sua tradição e que os contemporâneos não quiseram alterar, dá ao forasteiro, especialmente ao que reside longe daqui, uma ideia um tanto errada sobre o valor intrínseco do acontecimento. Ele pode supor, de início, que se trata de um festejo de acentuado sabor popular, com o arquinho, o balão e a fogueira crepitante.
As Festas de S. Pedro em Montijo são festas de pompa e esplendor (...)».
Até ao final da década de cinquenta, repetiu-se a legenda dumas festas que «renovavam-se esplendorosamente, numa apoteose de cor e alegria, de música e vibração, fazendo convergir para o Montijo os olhares curiosos de milhares de portugueses, admiradas e incrédulas de tanta grandiosidade (...).»

3.     O Plano Inclinado das festas Populares de S. Pedro

 O êxito do primeiro ciclo das Festas Populares de S. Pedro, definido pela direcção de Humberto de Sousa, e que se encerrou com a morte do maestro, em 1962, ficou a dever-se não só a uma direcção atilada, solícita e inteligente, mas também à colaboração condigna e eficiente prestada às festas e ao seu brilhantismo, uma colaboração incondicional de vontades anónimas, que produziu efeitos quase milagrosos, e ao apoio da Câmara Municipal do Montijo, que as integrou no ciclo de grandes realizações que então levou a efeito.

Na reunião da Câmara Municipal realizada em 1961, o presidente esclareceu que a Comissão de Festas apresentara a sua demissão e que dadas as dificuldades económicas do País, por motivos da situação criada pelos acontecimentos de Angola, (início da guerra colonial), propunha que se não realizassem as festas do próximo ano. A proposta não teve acolhimento, vingando a ideia de que se deveriam realizar, embora «com redução do dispêndio aconselhado pelas circunstâncias».
 As Festas continuaram o seu curso, «apesar dos enormes encargos que acarretam para o município», conforme registou a Edilidade.
 Na reunião de 21 de Julho de 1969, a Câmara Municipal «considerando que estas festas (Populares de S. Pedro) atingiram uma grandiosidade que exige um esforço de organização que por repetido causou a saturação; considerando que exigem igualmente uma mobilização temporária de grande parte dos serviços municipais que se reflecte no seu rendimento; considerando também o seu elevado custo que exige uma comparticipação municipal cada vez mais elevada; a Câmara deliberou, em princípio, não organizar as Festas no ano próximo, sem embargo de vir a conceder o seu patrocínio e comparticipação financeira a qualquer iniciativa particular tendente à sua realização em novos moldes a considerar oportunamente.»
Apesar da decisão municipal, as Festas acabaram por se realizar, «embora com muito menos afluência de visitantes em relação aos anos anteriores».
Em 1971, a Edilidade decidiu não realizar as Festas Populares de S. Pedro com os seguintes fundamentos: «Considerando o insucesso da organização do ano findo, não só sobre o aspecto de festividades como ainda e especialmente no que respeita ao funcionamento da respectiva comissão na sua organização interna; considerando a impossibilidade de conseguir a colaboração de pessoas de reconhecido mérito que possam constituir a respectiva comissão; considerando o comprovado desinteresse da maior parte das entidades comerciais e industriais e parte da população no que respeita à concessão de donativos ou outra colaboração; considerando que o encargo da Câmara no ano de mil novecentos sessenta e oito foi de duzentos e nove mil novecentos quarenta e um escudos e dez centavos, em mil novecentos sessenta e nove foram de cento e sete mil setecentos e dezoito escudos e sessenta centavos, em mil novecentos e setenta foi de duzentos cinquenta e oito mil duzentos noventa e três escudos e sessenta centavos; considerando que para além deste encargo em dinheiro, as festas mobilizam por largo tempo grande parte de pessoal, transportes e materiais diversos, o que causa a quase paralisação de alguns serviços municipais, o que para além de representar volumoso encargo prejudica boa parte da população. A câmara deliberou não realizar no corrente ano as Festas Populares de S. Pedro.»
A Câmara Municipal respondia assim à Comissão de Festas que, no seu programa de 1970, questionava: «continuarão a existir Festas? As respostas só podem ser dadas pela Edilidade Montijense, patrocinadora dos festejos, pelas Sociedades Recreativas da Vila, pela sua população e por todas as pessoas de boa vontade que venham a fazer parte de futuras Comissões. No entanto é firme convicção desta Comissão que as Festas da nossa terra continuarão cada vez maiores e melhores para prestígio da terra e gáudio dos seus habitantes e dos milhares de forasteiros que todos os anos a visitam.
ASSIM SEJA!!!»



Avenida dos Pescadores
A decisão política não se concretizou por se temer os efeitos nefastos da mesma. Por isso, o presidente da Câmara encetou conversações com algumas individualidades e acabou por convidar o Eng. José Samuel Lupi para organizar as Festas Populares de S. Pedro.
 A edilidade deliberou então «dar o seu patrocínio à organização das Festas por reconhecer que são de grande interesse para a propaganda e prestígio do Concelho (...) e conceder um subsídio até à importância de cento e cinquenta mil escudos e a habitual colaboração em pessoal e material, incluindo o fornecimento de energia eléctrica.»
José Samuel Lupi passou a presidir à Comissão de Festas, que se empenhou na renovação do figurino das Festas, aceitando a sugestão do vereador João Relógio para que fosse dado um espaço mais alargado a outras manifestações culturais cuidando-se da variedade do programa e da promoção do evento.
O jornal “ O Setubalense” de 29 de Junho de 1973 destacava que «O Montijo está em festa. As tradições mantêm-se mas sente-se que um sopro de renovação areja o programa das festas.»
Por sua vez, o Diário de Notícias, de Lisboa, referia-se «à variedade de números que o programa estabelecera» e aos «milhares de forasteiros que percorreram as ruas locais, vistosamente engalanados».
“A Casa de Bernardo de Alba”, de Frederico Garcia Lorca, levada à cena no Parque Municipal, foi apontada como o testemunho claro da renovação pretendida para o figurino das festas.

4.     As Festas e a Democracia

Entre 1974 e 1978, as festas Populares de S. Pedro foram organizadas pela Comissão Popular de Pescadores [SCUP]

A Revolução de 25 de Abril de 1974 interrompeu a acção da Comissão de Festas presidida pelo Eng. Samuel Lupi, que rejeitou o convite que lhe fora endereçado pela Câmara Municipal para continuar a presidi-la.
Na reunião de 6 de Maio de 1974, o vereador João Relógio da Silva lastimava-se com mágoa por julgar estar em vias de extinção «um dos meios de maior divulgação da vila do Montijo» e propunha para que tal não viesse a acontecer que «a presidência da Câmara tente arranjar, apelando para o bairrismo dos montijenses, uma nova Comissão.»
A Câmara Municipal foi dissolvida e em 18 de Junho de 1974, e o Presidente da Comissão Administrativa, Joaquim Tapadinhas, nomeado para dirigir o Município, logo informou os restantes membros que as Festas Populares de S. Pedro seriam realizadas, nesse ano, pela «Comissão Popular dos Pescadores, (Sociedade Cooperativa União Piscatória) em moldes mais modestos mas com respeito das tradições da classe piscatória.» A Comissão Administrativa deliberou então «subsidiar a organização até à importância de cinquenta mil escudos e conceder apoio material, de pessoal e transportes. As festas realizaram-se e terminando com um saldo positivo de dezanove mil duzentos e trinta escudos.
Segundo fez saber a Comissão Popular dos Pescadores, «estas centenárias comemorações de S. Pedro, patrono dos pescadores, voltam outra vez à origem. Nasceram do povo e ao povo regressam.»
Durante quatro anos aquela Comissão organizou as Festas Populares de S. Pedro, voltando posteriormente a vingar a “municipalização das festas”, isto è, a nomeação da Comissão das Festas pela Câmara Municipal, sistema que fora utilizado após a demissão de Humberto de Sousa.
A partir de 1979, a constituição das comissões das festas voltou a ser de iniciativa municipal correspondendo o perfil do presidente ao ideário político da força política maioritária no Município.
O brilho das festas continuou a empalidecer apesar dos lampejos fugazes originados ou por um arrojo de imaginação ou por melhor dotação orçamental da organização oriunda, sobretudo, dos cofres municipais.
Os períodos difíceis vividos pelo País, após a Revolução de 25 de Abril de 1974, repercutiram-se também na roupagem que adornou as Festas Populares de S. Pedro, sem contudo lhe alterar o figurino e o calendário, que sempre foram cumpridos.


Baile de Roda - Arrematação das Bandeiras e de S. Pedro
Distinguem-se, ainda hoje, nas Festas Populares de S. Pedro, aspectos religiosos, outros de puro divertimento e um terceiro, que se perde com a tradição Ribatejana e telúrica, ligado à festa dos touros, na linha do que se reconhecia no Programa das Festas de 1959: «Três facetas notáveis se distinguem nelas, na actualidade:-A Festa Civil, a Religiosa, a Festa Ribatejana.
A primeira, é constituída pelas ornamentações dos arraiais, iluminações, grupos folclóricos, sessões de fogo, Feira Franca, etc.
 A segunda, pela missa solene, procissão, bênção dos barcos, ornamentação, iluminação da Igreja Matriz, etc.
A terceira, pelas «largadas» e corridas de toiros, correspondendo igualmente à tradição regional.»
As três facetas formam um todo harmónico e empolgante, que se conjuga no programa das festas.

As Festas Populares de S. Pedro impuseram-se, nas décadas de cinquenta e sessenta, como o principal acontecimento social, cultural e recreativo, forte clarão a reluzir por momentos numa sociedade conservadora e reprimida.
As costureiras, os alfaiates e o comércio em geral animavam-se pois tornara-se costume estrear roupa nova por altura das festas. E não era só o fato ou vestido. Toda a roupa interior e calçado eram novos.
Os bailes da couve, os bailes da roda, a lavagem, a animação da festa, enfim, criavam a ilusão dum mundo de maior harmonia, esbatiam barreiras e preconceitos e permitiam formas de convivialidade, que, usualmente, estavam arredadas do quotidiano. Eram momentos propícios aos namoricos e a uma vivência vicinal de cooperação levada aos extremos.
Não bastava vestir o fato novo. Era necessário preparar a casa para a festa. Por essa altura, as fachadas eram pintadas e o interior revirado numa profunda limpeza, hábitos que se vão esbatendo numa sociedade apressada e numa comunidade que perde assustadoramente os traços fundamentais da sua identidade.

O anacronismo conceptual das festas, o aparecimento da televisão, a democratização dos transportes e da cultura, a saturação do programa festivo, tão pouco inovador, e a evolução social, sobretudo a partir da década de setenta, que quebrou tabus e liberalizou os costumes, relegaram as Festas Populares de S. Pedro para um plano comum, notabilizando-se ou não consoante a riqueza e o ineditismo dos programas que apresenta.
As Festas Populares de S. Pedro não voltaram a encontrar o fulgor da primeira década da sua realização e, por isso, não conseguiram afirmar-se como um forte pólo de atracção turística ou cartaz maior da promoção da Montijo.
A Festa é hoje não só a intensa e multicolor luz do arraial, embora cada vez mais pálida, mas também as pequenas festas que se fazem em roda de amigos, em locais privados, podendo então afirmar-se que os montijenses saem à rua para saudar S. Pedro, mas é no recanto de cada uma das suas pequenas festas, que se multiplicam por esta altura, que a alegria é mais castiça e a tradição reluz. Registe-se que esta tradição também se está a esbater.
Corre-se às largadas, festeja-se a noite da sardinha, louva-se Baco e em devoção leva-se S. Pedro até ao rio em procissão, para que as águas continuem mansas e o peixe, se possível, volte a saltar. Ribombam morteiros e enche-se a noite de fogo-de-artifício. Intenso e breve como a festa.
A genuína tradição está cativa dum pequeno núcleo de famílias – os pescadores – cada vez mais reduzido. A marcha inexorável do tempo apagá-la-á paulatinamente do quotidiano para a guardar na memória ténue e imprecisa das futuras gerações. A luz pálida da estrela de S. Pedro ainda ilumina a cidade, em Junho, mas sente-se que já está extinta.    

O Bairro dos Pescadores localizava-se nos arrabaldes da vila, dispunha-se «por artérias regulares e era constituído por casario humilde, térreo ou de andar, na vizinhança de viveiros de peixe, abrigados por diques de terra batida (...).»
Foi assim e ali que, um dia, há cerca de quinhentos anos, tudo começou…

Ruky Luky


P.S.: Afirmam a presidente da Câmara Municipal de Montijo que a Festa dos Pescadores foi reactivada há 63 anos, e o presidente da Comissão de Festas que as festas remontam a 1856.
Por outro lado, confundem os conceitos de Festas dos Pescadores e Festas Populares de S. Pedro como se tratasse da mesma e única realidade. (In Programa virtual das Festas Populares de S. Pedro/2012)
Como se demonstrou as Festas de S. Pedro são celebradas há mais de quinhentos anos e as Festas Populares de S. Pedro foram instituídas em 1951.
Terão tomado a nuvem por Juno?

Ruky Luky

segunda-feira, 18 de junho de 2012

As Tradições Tauromáquicas nas Festas Populares de S. Pedro - Montijo

Entradas, Largadas, Touradas e Esperas


Distinguem-se, ainda hoje, nas Festas Populares de S. Pedro, aspectos religiosos, outros de puro divertimento e um terceiro, que se perde com a tradição Ribatejana e telúrica, ligado à festa dos touros, na linha do que se reconhecia no Programa das Festas de 1959:

«Três facetas notáveis se distinguem nelas, na actualidade:-A Festa Civil, a Religiosa, a Festa Ribatejana.
A primeira, é constituída pelas ornamentações dos arraiais, iluminações, grupos folclóricos, sessões de fogo, Feira Franca, etc.
 A segunda, pela missa solene, procissão, bênção dos barcos, ornamentação, iluminação da Igreja Matriz, etc.
A terceira, pelas «largadas» e corridas de toiros, correspondendo igualmente à tradição regional.»

As três facetas formam um todo harmónico e empolgante, que se conjuga no programa das festas.
As touradas e entradas, num primeiro momento, e, posteriormente, as largadas constituíram sempre um dos momentos altos das festas, em Montijo, ao longo dos séculos. Porém, nunca integraram as Festas de S. Pedro organizadas pelos pescadores, embora, ao longo das décadas tenha coincidido a realização de touradas por outras entidades com o dia do Santo Popular dos Pescadores. O mesmo não se poderá dizer das Festas Populares de S. Pedro de cujo programa fazem parte integrante as touradas e as entradas.
Entradas, embolação e tourada constituíram a trindade indispensável ao amante da tauromaquia em Aldegalega/Montijo.
 As entradas, que outra coisa não são que a condução do gado pelos campinos da lezíria à praça de touros ou ao local das largadas, realizaram-se sempre, salvo raríssimas excepções, pelo lado nascente da vila, onde foram edificadas várias praças de touros.
No final do século XIX, as autorizações para a realização de touradas eram concedidas com a condição expressa de que os touros entrariam na praça de touros entre as duas e as quatro horas da manhã, sendo proibido o acompanha mento do gado por quaisquer indivíduos estranhos à sua condução, para que se evitassem desmandos.
Além das entradas, tornaram-se habituais as esperas, momento do regresso, à noite, dos toiros, depois de terem sido lidados.
As entradas foram proibidas, no início da década de quarenta, do século XX, devido à morte de duas pessoas por um touro tresmalhado, dando lugar às largadas, sendo então os touros conduzidos para um local vedado, onde eram soltos, usualmente na Praça 1º de Maio e nas Ruas Machado dos Santos, Miguel Bombarda e Joaquim de Almeida.
Os touros começaram por ser largados embolados, apresentando-se, depois, em pontas.
Quando passaram a constituir um dos motivos de animação das Festas Populares de S. Pedro, a partir de 1959, no ano anterior tinha havido duas entradas, as largadas ocuparam preferencialmente as Ruas Joaquim de Almeida e Miguel Bombarda.
Em 1971, as largadas passaram a realizar-se no Bairro dos Pescadores e aí se mantiveram até 1981, apesar do desagrado dos moradores de S. Sebastião.
 Após o 25 de Abril de 1974, os moradores deste bairro acharam que tinha chegado o momento de exigir o cumprimento da velha tradição e passaram a exigir que as largadas tivessem lugar nas Ruas Joaquim de Almeida e Miguel Bombarda. Não tendo sido deferida a sua pretensão quotizaram-se e passaram a organizar as Festas Populares de S. Sebastião, de carácter restritamente profano, nas quais se destacavam os divertimentos taurinos, além da “Noite do Comes e Bebes”, e da “Saída da Charanga com Danças de Rodas” e outras formas de entretenimento. Contudo, o ponto alto das festas eram as largadas - várias por dia, durante os três dias de festa- e a tourada.

Praça 1.º de Maio
São escassas as notícias acerca dos festejos em honra de S. Sebastião, embora se soubesse, em 1903,” que há muitos anos não se faziam” .
Na história recente de Montijo, há notícias das Festas de S. Sebastião, realizadas consecutivamente entre 1976 e 1981, como atrás se mencionou, resultantes dum acto de insatisfação dos moradores das Ruas Joaquim de Almeida e Miguel Bombarda e de outras que as circunvizinham por as largadas se efectuarem no Bairro dos Pescadores, quando, tradicionalmente tinham acontecido na antiga freguesia do Montijo. Mas, estes festejos não podem ser considerados reminiscências das Festas de S. Sebastião, cuja Ermida “ fez o concelho por sua devoção” , no século XV.
Em 1614, os mancebos solteiros da vila de Aldegalega considerando que “ o bem--aventurado Mártir S. Sebastião não tinha Confraria nem Irmandade na qual seja servido e festejado e que a sua igreja estava danificada e arruinada em partes e o seu altar sem ornamentos e tudo abandonado, determinaram tomar o santo mártir por seu protector e advogado”. Segundo o “ Compromisso da Irmandade do Bem-Aventurado Mártir S. Sebastião Instituída Pelos Mancebos Solteiros Desta Vila de Aldegalega do Ribatejo na Igreja do Santo Mártir, Que Foi Freguesia”, confirmado por alvará de Filipe II, de 20 de Fevereiro de 1615, “em cada ano, a 20 de Janeiro, no mesmo dia do Santo se faça a sua festa (com) Missa Cantada, Pregação e Procissão Solene”.


A zona nascente da vila, onde se edificou ermida de S. Sebastião, foi, nos primórdios do povoamento de Aldegalega, habitada, essencialmente, por agricultores e tornou-se o local tradicional das festas taurinas.
As touradas foram instituídas, em Aldegalega, no século XVI, por Provisão Real de D. Manuel, para divertimento do povo. À Câmara Municipal estava cometida, então, a responsabilidade de construir os palanques para ver os touros, que, usualmente, fazia no adro da Igreja Matriz do Divino Espírito Santo (actual Praça da República).
As primeiras referências à existência de uma praça de touros, em Aldegalega, localizam-na no Largo de Santo António (actual Largo Dr. Manuel da Cruz Jr., ao Bairro dos Pescadores) e, posteriormente, na cerca do Convento dos Frades da Graça (actual Cinema Joaquim de Almeida).
Quando, em 1951, foram relançadas as Festas Populares de S. Pedro, não foi incluída a realização de nenhuma tourada no programa devido ao mau estado da Praça de Touros. No ano seguinte, a Comissão de Festas optou por realizar uma corrida numa praça desmontável e, a partir de 1958, a Praça de Touros fora inaugurada em 1957, a corrida passou a constar obrigatoriamente do programa das Festas Populares de S. Pedro.
 
Entradas

Um forte morteiro anuncia o princípio e o fim das largadas, que ocupam vários dias das Festas Populares de S. Pedro, sempre animadamente participadas. E mesmo quando o touro investe e colhe grave ou mortalmente algum aficionado mais afoito, o divertimento continua, porque é o arrepio da morte que se mostra nos cornos da besta que dá emoção ao espectáculo.

 Ruki Luki






















Gil Vicente na 1.º de Dezembro

O PRANTO DE MARIA PARDA
Natividade Guarda, Maria Luminosa e não Parda
O Grupo de Teatro Amador da Sociedade Filarmónica 1.º de Dezembro de Montijo levou à cena, no auditório da associação, “O Pranto de Maria Parda”, de Gil Vicente, numa encenação de Carlos Soares, nos passados dias 16 e 17 de Junho.

O público rendeu-se à interpretação dos amadores, revelando-se uma nova actriz, Natividade Guarda, luminosa na caracterização da personagem Maria Parda, que conseguiu arrancar palmas à assistência, num dos momentos da sua actuação, contagiada pela vibrante e contagiante interpretação da protagonista.

Antonieta Matos, que se “vestiu” de Biscainha, Branca Leda e Falula, e Pedro Correia, nos papéis de João Cavaleiro, João do Lumiar e Martim Alho, bem contracenaram com Natividade Guarda, emprestando o seu talento à excelente representação de Gil Vicente.

Natividade Guarda e Antonieta Matos

Natividade Guarda e Pedro Correia
A música cénica foi da responsabilidade de Jorge Vargas.
Jorge Vargas


O espectáculo terminou com o Grupo de Teatro a confraternizar com o público, tendo o Moscatel como mote e a fogaça por companhia .

O Grupo de Teatro Amador da Sociedade Filarmónica 1.º de Dezembro foi uma bela surpresa numa tarde suave de Junho. Pena é, como se tornou usual em Montijo, que não haja divulgação atempada destas iniciativas.

Ruki Luki

sexta-feira, 15 de junho de 2012

ÚLTIMA FRAGATA

ÚLTIMA FRAGATA
Aquela velha fragata
Abandonada no cais
É a imagem que retrata
Algo que não volta mais
Tão velha como o arrais
Que a contempla entristecido
E à noite chora no cais
Saudades do rio perdido

 Velha fragata
Que o tempo mata
Presa no Cais
Já não te vejo
Enfeitar o Tejo
Com o teu arrais
As tuas velas
Outrora belas
Cheias de vento
Pareciam aves
Em voos suaves
Rasgando o tempo

Ao sol, à chuva e ao frio
Tempestades e Infernos
Na rude faina do rio
Lutaram setenta Invernos

Sem reforma que os sustente
No pior dos temporais
Vão morrendo lentamente
A fragata e o arrais.
                 João Dias

Fotos: Rui Jorge Aleixo/93

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Morrer em Montijo

Morrer em Montijo

Igreja de S. Sebastião garantia da sacralização do cemitério e da salvaguarda das almas
No correr dos séculos XVI, XVII e XVIII, o medo da morte e do terrível inferno, levou a que a Santa Casa da Misericórdia de Montijo tivesse sido beneficiada de generosas doações para celebrar missas de sufrágio pela alma do doador, que julgava, assim, salvaguardar a alma das labaredas de satã.
Proteger a alma contra o poder do demónio, descansando em paz, levou à prática dos enterramentos ad sanctos, isto é, no interior ou nos adros das igrejas e nos claustros e outras dependências conventuais, que se difundiu, na Europa, desde a Alta Idade Média.

Em Aldegalega do Ribatejo, Montijo, as igrejas receberam milhares de cadáveres, até ao século XIX.
A localização das sepulturas, no interior ou no adro da igreja e dentro daquela a proximidade ao altar, denunciava a classe social e a situação social do finado.
No século XVI, por exemplo, uma sepultura no interior da igreja custava, em Montijo, 1000 reais e a cova só era cedida mediante pagamento prévio. Por outro lado, à segunda-feira, depois da missa, os «clérigos saiam com a cruz e água benta, e com os seus Responsos tangendo os sinos andavam pela igreja e adro lançando água benta pelas sepulturas [o que] traz muita devoção aos vivos e proveito aos defuntos que sempre esperam pela oração e sufrágios da madre Igreja».
A inexistência de uma igreja criava problemas delicados à população, que acabava por enterrar os seus mortos na lixeira, como aconteceu em Sarilhos Grandes, até à edificação de uma igreja, no século XVI.
Há notícias de enterramentos, em Montijo, nos Conventos de Nossa Senhora da Conceição e Nossa Senhora da Graça, este corresponde à actual Esquadra da Polícia e aquele estava localizado entre a Av.ª Luís de Camões e a Praça Brasília e foi consumido por um incêndio, no início do século XX; na Igrejas do Divino Espírito Santo, da Misericórdia e de S. Sebastião e na Ermida de S. António; em Canha, na Igreja de S. Julião e, em Sarilhos Grandes, na Igreja de S. Jorge.


 O primeiro cemitério construído em Montijo fora do espaço da igreja foi obra da Santa Casa da Misericórdia.
Em Junho de 1683, a Irmandade pediu autorização ao Arcebispo de Lisboa para sepultar os muitos pobres que faleciam no seu hospital no pátio da igreja, «por não ter cemitério separado para esse efeito», e então o Arcebispo que fizesse «esmola de conceder licença para que o pátio se benza e sejam sepultados os pobres que faleciam no Hospital (…)».
D. Luís de Sousa, Arcebispo de Lisboa, deferiu o pedido em 20 de Março de 1684 e em Maio desse ano o pátio foi benzido, passando a receber os pobres que viessem a falecer no Hospital, continuando os Irmãos a serem sepultados no interior da Igreja.
 
Planta das sepulturas existentes no interior da Igreja do Divino Espírito Santo, in Livro das Sepulturas, 1685.
Foi em Janeiro de 1841, que o presidente da Junta da Paróquia da Freguesia do Divino Espírito Santo alertou o presidente da Câmara Municipal de Aldegalega [Montijo] para a urgente necessidade de se construir um cemitério, «visto que dentro da Igreja [do Divino Espírito Santo] se não podem enterrar os cadáveres pelos muitos que ali se têm enterrado.»

A autarquia, depois de ter ponderado sobre o assunto, decidiu construir o cemitério no terreno anexo à Ermida de S. Sebastião, «não só em razão da proximidade da vila e extramuros da mesma, mais ainda por ficar junto à dita Ermida, objecto muito preciso num cemitério.
No ano seguinte, em Abril, foi adjudicada a construção do cemitério. Por essa altura, o pároco e presidente da Junta da Paróquia, D. João de Noronha, informava ao presidente da câmara municipal de que «é já impossível continuar-se na prática de enterramentos: a multiplicidade de cadáveres amalgamados em todas as sepulturas [dentro da Igreja do Divino Espírito Santo] torna aquela terra em perfeita putrefacção, a ponto tal, que não deixando consumir os cadáveres, aparece na sua abertura uma exalação de miasmas de que é preciso evitar o seu contacto para não sofrer perturbações de cabeça.» O pároco alertava ainda para «as exalações pútridas que continuamente estão emanando das sepulturas» e para os perigos que dali derivavam para a saúde pública, uma vez que se aproximava o Verão e a igreja estava localizada no coração da vila.
Apesar do retrato traçado pelo pároco, os fiéis ocorriam pontualmente à celebração dos ofícios religiosos.

Em 7 de Junho de 1843, iniciaram-se as obras de construção do cemitério, feitas a expensas dos cofres do município e da Irmandade do Santíssimo Sacramento. Para a edificação da cerca foi aproveitada a pedra oriunda da demolição do muro do logradouro do Convento dos Frades da Graça.
No ano seguinte, no dia 20 de Janeiro, a câmara municipal deliberou fazer «uma festa a S. Sebastião, e depois dela se proceda à benzedura do cemitério público para se começar ali a fazer os enterramentos.»
Em 3 de Fevereiro de 1844, o cemitério público recebeu o primeiro cadáver.


Vista aérea da cidade de Montijo. Em primeiro plano, o cemitério de S. Sebastião, primevo de Montijo.

 Contestação aos Enterros ad Sanctos e o Cemitério de Sarilhos Grandes

 Segundo Adérito Tavares, «na segunda metade do Século XVIII, porém, novo espírito iluminista fez surgir críticas vigorosas a estas práticas inumatórias, sobretudo devido às «emanações pestilentas e ao espectáculo macabro das ossadas acumuladas nos recintos das igrejas.»

Em 1787, Pina Manique nomeou uma equipa de juristas e médicos para procederem à observação das condições em que se faziam os enterramentos em Lisboa, acabando o Intendente por propor a criação de cemitérios públicos na cidade de Lisboa.
Contudo, só em 1835, pelo Decreto de 21 de Setembro, de Rodrigo da Fonseca Magalhães se determinou que «em todas as Povoações serão estabelecidos cemitérios públicos para neles se enterrarem os mortos.»
No preâmbulo, o legislador explica que uma das razões que conduzira ao insucesso das anteriores iniciativas se prendia com o facto de «a autoridade que vedava os enterros nos templos, não tornava efectivos os estabelecimentos dos cemitérios, ou apenas lhes designava porções de terreno, abertos, e devassados por animais, com escândalo dos fiéis.» Por outro lado, continuava o legislador, «a ignorância da Idade Média transformou [o enterro nas igrejas] em dever de religião, cedendo a sugestões insidiosas dos que derramavam a fatal crença de que alcançariam a glória das almas aqueles cujos corpos jazessem em companhia das imagens dos Santos, dentro dos templos sagrados.»
O decreto de 21 de Setembro de 1835 atribuía às câmaras municipais a competência para estabelecer cemitérios.

A resistência e a contestação popular aos enterros nos cemitérios públicos, que foi o copo que fez eclodir uma revolta, em 1846, manteve-se, em Aldegalega/Montijo, pelo menos, até 1887.
O ofício que o Administrador do Concelho de Aldegalega/Montijo remeteu ao Governador Civil, em Outubro de 1851, caracteriza bem a insatisfação popular:
«(…) Na Freguesia de S. Jorge de Sarilhos Grandes enterram-se ainda os cadáveres  na Igreja, não só porque nem a Câmara tem meios suficientes  para acudir a esta obra de suma transcendência e necessidade nem os Povos do Município podem suportar mais impostos como também pelos prejuízos e inveterados preconceitos dos moradores da dita freguesia que dificilmente se poderão habituar a ver os cadáveres fora da igreja, a qual querendo o penúltimo pároco João Francisco de Borges da Lança por ocasião de se reparar fazer assoalhar toda [a Igreja de S. Jorge] sem covatos, não foi possível consegui-lo, e os que mais concorriam para as obras, desde logo protestaram não mais prestar a menor quantia, além de influírem os demais a uma tenaz oposição (…) .»
Isto é, dependendo a realização das obras da Igreja do concurso popular este só foi manifestado com a garantia de que se manteria o enterro no interior da igreja.
Apesar da resistência da população de Sarilhos Grandes, a situação tornou-se insustentável.

Em Setembro de 1857, o Regedor da Paróquia, José Miranda Roldão, enviou ao Administrador do Concelho o seguinte ofício:
«Participo a Vossa senhoria que hoje pelas duas horas da tarde, pouco mais ou menos, vieram a minha casa queixar-se os habitantes desta terra, em número de doze ou treze, por causa de um enterro que teve lugar nesta freguesia. O caso foi assim: foram para enterrar o cadáver no primeiro sítio que o sacristão designou e logo deram com um corpo; fizeram a segunda cova (e) aconteceu o mesmo, terceira o mesmo, de sorte que à sexta escavação é que puderam introduzir o cadáver por entre mais corpos, de maneira que o mau cheiro já não deixava cobrir o corpo com terra porque ninguém o suportava (..) Cenas destas têm aqui acontecido mais de uma dúzia de vezes, principalmente fazendo calor (…). O Povo grita, o Povo clama e eu vejo que tem muita razão. Principalmente os que assistem em roda da Igreja já têm presenciado coisas que chocam, como porcos a fossar nas sepulturas e tirarem os ossos para cima para roerem, e cães a escavar (…). É uma cena bem desagradável presenciarem os habitantes estas coisas em frente das suas casas, pois nesta terra são as casas muito em cima da Igreja e esse pequeno recinto é que nos serve de cemitério.»

Mais sete anos suportaram os habitantes de Sarilhos Grandes este cenário de horror.
Em 1862, foi aberto o procedimento para a construção do cemitério, cuja obra ficou concluída em 1864. Sagrado no dia 3 de Junho do mesmo ano, recebeu o primeiro cadáver em 17 de Julho.


Ruki Luki