quinta-feira, 29 de março de 2012

O caldo entornado

A movimento de defesa do Cais dos Vapores fez revelar a ténue camada de verniz democrático de que estavam revestidos alguns dos mais proeminentes dirigentes socialistas de Montijo. Face à contestação popular a presidente da Câmara Municipal de Montijo viu nos defensores da opção Cais dos Vapores pessoas com «frustrações, ausência de projectos, ausência de políticas, (que) encobrem uma mediocridade muito grande. São pessoas frustradas política e profissionalmente e que não correspondem às mudanças que os novos tempos trouxeram nem aos desafios de modernidade.» Mas a caravana continuou a passar...

Os defensores da opção Seixalinho não conseguiram fundamentar o porquê do modo e do tempo da deslocalização do cais. Os argumentos seriam risíveis se não estivesse em causa o futuro de Montijo, que ficou deveras hipotecado.

Mas recuperemos alguns dos argumentos invocados pelos defensores da deslocalização do cais para o Seixalinho, cujos arautos foram dois dos principais dirigentes socialistas concelhios, que tão preocupados se mostraram, então, com as minhocas.  

·        Apoiar a Transtejo em melhorar as carreiras e exigir mesmo o aumento do número destas assim como qualidade dos transportes.

·        Impactes ambientais muito negativos causados pela vinda dos catamarans até ao Cais dos Vapores.
·        Destruição dos muretes das salinas.

·        Naufrágio dos pequenos barcos dos pescadores.

·        Dragagem no Cais dos Vapores prejudica as minhocas.

·        Transtejo suspenderá, a curto prazo, a ligação Montijo/Lisboa com navios rápidos, devido à degradação progressiva das condições de navegabilidade do canal do Montijo e aos problemas ambientais criados.

·        Valorização e requalificação do Cais dos Vapores, dotando-o de um porto de recreio, com apoio às diversas actividades náuticas, sedes de clubes, prevendo-se a instalação de restaurantes e actividade terciária.

 Ruki Luki

O Imenso Adeus ao Cais dos Vapores - Em defesa das minhocas!

Cais dos Vapores. O seu movimento animava a cidade. Mas os defensores do Cais do Seixalinho garantiam que os catamarans arruinavam os muretes das salinas (que já não existiam); os catamarans voltavam os pequenos barcos dos pescadores (de que nunca houve notícia); as dragagens davam cabo das minhocas.
6.04 – Mário Pinto, num artigo publicado na «Nova Gazeta» analisa as potencialidades do Cais dos Vapores.

13.04. Presidente da Câmara Municipal, Maria Amélia Antunes – «A melhor decisão, uma das melhores decisões do ponto de vista estratégico e de futuro para o Montijo, que nós podemos tomar é apoiar a Transtejo em melhorar as carreiras e exigir mesmo o aumento do número destas assim como qualidade dos transportes. Não pretendemos a unanimidade. Quem exerce o poder não pode agradar a gregos e a troianos. Há algumas pessoas que têm preocupações e que nós respeitamos. Mas existem outras cujas preocupações nada têm a ver com a realidade das preocupações das outras pessoas. Encobrem frustrações, ausência de projectos, ausência de políticas, encobrem uma mediocridade muito grande. São pessoas frustradas política e profissionalmente e que não correspondem às mudanças que os novos tempos trouxeram nem aos desafios de modernidade, que se colocam às comunidades em cada dia.»

Presidente da Comissão Política Concelhia do PSD, Carlos Fradique – «Entende o Partido Social Democrata que a intenção da Câmara e da sua Presidente, quanto à obra do Cais do Seixalinho constitui um caso que pelos seus desenvolvimentos justifica plenamente que se pergunte directamente os Montijenses o que pretendem, se querem manter a infra-estrutura do Cais dos Vapores, melhorando-a, ou construir o Cais do Seixalinho. O PSD, consciente das suas responsabilidades, vai desencadear os mecanismos legais para através de um REFERENDO LOCAL auscultar a vontade dos munícipes.»

Deputados comunistas da Assembleia da República, Vicente Merendas e Joaquim Matais, interrogam o Governo para saberem que justificação tem o governo para alterar a localização do cais em prejuízo da população utente e se tenciona respeitar as justas aspirações da população para que o Cais dos Vapores continue a servir a população e os interesses da cidade.

                                               Cais dos vapores

18.04 – Plataforma Cívica de Defesa do Cais dos Vapores solicita uma audiência ao Ministro do Equipamento Social

20.04 – Jornal do Montijo – «Câmara reúne hoje com empresas transportadoras. Segundo Maria Amélia Antunes, o grande objectivo «é dar início a um conjunto de reuniões de trabalho para melhorar os transportes no concelho aquando da entrada em funcionamento do Cais do Seixalinho», ou seja, em Novembro do corrente ano.»

José Bastos – «A oposição está preocupada com os impactes ambientais causados pela construção do Cais Fluvial Regional no Seixalinho. O Deputado do PSD, Jorge Moreira da Silva, resolveu apresentar perguntas escritas à União Europeia. O Senhor eurodeputado do PSD está muito preocupado com o ecossistema de aves e espécies aquáticas. É difícil perceber (senhor eurodeputado) que os impactes ambientais muito negativos, causados pela vinda dos catamarans até ao Cais dos Vapores é incomparavelmente superior àqueles que existam com a construção do aterro para estacionamento no Cais (do Seixalinho)? O Senhor eurodeputado do PSD, Jorge Moreira da Silva sabe que os modernos catamarans destruíram os muretes das salinas de Montijo que se estão a transformar em sapal? O Senhor eurodeputado do PSD sabe que as ondas dos catamarans voltam os pequenos barcos dos pescadores? O Senhor eurodeputado Jorge Moreira da Silva sabe que a dragagem da cala para os barcos navegarem até ao Cais dos Vapores é ambientalmente negativa? O Senhor eurodeputado do PSD não deve só procurar pelas aves à União Europeia, deve também perguntar pelas minhocas que vão misturadas com os lodos no caso das dragagens.»

24.04 – A Deputada da Assembleia da República Heloísa Apolónia (PEV) requer ao Ministério do Equipamento Social que seja informada acerca dos estudos de avaliação de impactes sociais, ambientais e económicos que justificam e estão na base da decisão de transferência do terminal fluvial para o cais do Seixalinho; se há garantias de transporte de ligação entre a cidade e o cais com custos adicionais; do que levou à inexistência de discussão pública de uma matéria que gerou polémica no Montijo e que mecanismos estão garantidos para evitar o assoreamento do rio, se se encerrar o cais dos Vapores.

25.04 - Início da Recolha de Assinaturas para a realização do Referendo Local de iniciativa de cidadãos com o objectivo de promover a consulta popular sobre a transferência da estação fluvial do Cais dos Vapores para o Cais do Seixalinho, pretendendo-se também com a escolha desta data assinalar a passagem do 27º aniversário da Democracia. A pergunta que vai ser referendada é a seguinte «concorda com a transferência da estação fluvial do cais dos Vapores para o Cais do Seixalinho?».

Setubalense – «A presidente da Câmara Municipal do Montijo, representantes das empresas de táxis, dos Transportes Sul do Tejo, Transtejo, Junta de Freguesia da cidade e da equipa de consultores que se encontra a elaborar o Plano Municipal de Transportes reuniram na passada semana. Em cima da mesa esteve a conjugação de esforços para dotar o novo cais do Seixalinho de melhores acessibilidades para os utentes. A autarca reafirmou que «não haverá aumento do preço» para os utentes que se tenham que deslocar ao Seixalinho e disse que ficou garantido que «não haverá qualquer carreira de barco que não seja servida por autocarro».”

2.05 – TST – Os Transportes Sul do Texto, S.A. informam a Plataforma Cívica de Defesa do Cais dos Vapores que «o assunto relativo à transferência do Cais dos Vapores para o Cais do Seixalinho tem vindo a ser objecto de análise conjunta com as autoridades intervenientes, nomeadamente Transtejo e Câmara Municipal de Montijo que tem coordenado o projecto. Neste sentido deverão contactar a Câmara Municipal de Montijo que dispõe de informações globais».

                                           Cais do Seixalinho= cais de mercadorias

4.05 – Nova Gazeta – «Com o Referendo à espreita, mais de 5000 montijenses já se manifestaram contra a transferência do Cais para o Seixalinho, assinando o abaixo-assinado posto a correr pela Plataforma Cívica de Defesa do Cais dos Vapores.»

Luís Luizi – «A questão é de saber se a população do Montijo não merece que se gaste o custo das dragagens, para que se mantenha o Cais dos Vapores como terminal fluvial, com as suas vantagens e expurgado dos seus inconvenientes. Pena é que estas trocas de ideias caiam em saco roto, porque «as pessoas primeiro» foi slogan eleitoral, mas não criou raízes em muitos dos que nos governam.»

António Carvalho - «Por ironia do destino, parece-me que se vai reflectir (com a mudança do cais) o que se passou com a Ponte Vasco da Gama. Muitos foram contra a sua localização porque, diziam, se perderiam características essenciais de modelo de vida económica e social...Hoje são os primeiros a passar para a outra margem para os desfrutes e consumos mais insuspeitos, mas sempre a encher a boca com preocupações pelos valores e comércio local.»

7.05 – Início da construção do terminal do Seixalinho, com terraplanagens e construção de um aterro. As obras estavam agendadas para o mês de Março. A Transtejo garante que, se não houver problemas na primeira fase da obra, a segunda começará em Junho, estando o Cais concluído até ao final do ano. O previsão de custos do interface é de 950 mil contos.

Transtejo – «As constantes dificuldades pelo constante estreitamento do canal do Montijo e a necessidade de regularmente ter de se proceder a dragagens que por motivos ambientais conhecidos não poderão continuar a realizar-se poderia obrigar a muito curto prazo à suspensão da ligação com catamarans. (O Montijo) ganhará um novo espaço nobre, virá reduzir os níveis de poluição no interior da cidade e melhorará a qualidade de vida e do ambiente.»

Jornal do Montijo – «Os automobilistas poderão aceder ao novo cais pela Circular Externa da cidade, cuja obra custará 3 milhões de contos. A primeira fase entre a EN4 e a Rotunda de S. Sebastião estará pronta a tempo da inauguração segundo previsão da câmara municipal. A Transtejo prevê que, no primeiro ano de funcionamento do novo cais, o número de passageiros sofra um acréscimo na ordem dos 50%, provenientes de Montijo, Alcochete, Moita, Palmela e Vendas Novas.»

10.05 – Conselho de Administração da Transtejo – «Iremos introduzir e promover um novo título de transporte combinado com os outros operadores que representa para os clientes uma poupança no custo em cerca de 3%, no caso de utilizar a rede urbana rodoviária na margem Sul e um novo título combinado com o respectivo estacionamento que não representa aumento de custos relativamente ao passe actual. Por outro lado para os que não necessitem de utilizar o parque de estacionamento, nem a rede rodoviária urbana a poupança mensal situar-se-á em cerca de 20%. (o) Parque de estacionamento (tem) garantia de segurança durante o período de parqueamento e (a taxa é) de cerca de um euro por um período diário.»

11.05- Nova Gazeta –«A Plataforma Cívica, na sua última reunião, deliberou suspender a recolha de abaixo-assinados, que se cifram já em cerca de 5000 assinaturas, para que não colida com a recolha de assinaturas a que se procede agora para a realização de um referendo acerca da transferência do Cais dos Vapores e apoiar a recolha de assinaturas para o Referendo.»

12.05 – O Deputado da Assembleia da República, Paulo Portas (CDS/PP) encontra-se com membros da Plataforma Cívica que o inteiram dos seus propósitos e promete interrogar o Governo sobra as razões da mudança.

18.05 – Comissão Política Concelhia do Montijo do PSD – «Este é o mesmo José Bastos e o mesmo PS que mandam na Câmara de Montijo, façam o vosso próprio juízo.” Comentário que acompanhou a publicitação da notícia do “Público” de 27 de Março de 1991, feita por aquele partido em que José Bastos e o PS se manifestavam contra a mudança do cais para o Seixalinho, porque traria demoras no acesso à cidade e, por outro lado, porque a Transtejo queria fugir à obrigação de tratar do assoreamento e das margens do rio.»

Deputada da Assembleia da República, Lucília Ferra (PSD) – «Muito se tem falado na transferência do cais fluvial dos vapores para o Seixalinho. Porém, excepto a honrosa excepção proporcionada pela Assembleia de Freguesia do Montijo, nunca os cidadãos do Montijo tiveram a possibilidade de participar num fórum de debate sobre o assunto. Na verdade, a Câmara Municipal do Montijo, apesar de competente para decidir sobre a matéria, nunca se preocupou em promover o devido esclarecimento das populações, apresentando, como era seu dever, as várias soluções alternativas existentes. Perante as recusas injustificadas em discutir publicamente o projecto, e dadas as implicações futuras de tal decisão, decidiu um grupo de cidadãos eleitores promover um Referendo Local. Aqui sim os cidadãos poderão participar e esclarecer as sua dúvidas votando, em consciência, Sim ou Não ao Cais do Seixalinho. (Se) Impedir o referendo ao Cais do Seixalinho, o Partido Socialista presta um mau serviço ao Montijo e um péssimo serviço aos nossos conterrâneos.»

M. Guerreiro – «decidir-se a transferência do cais fluvial de passageiros para o Cais do Seixalinho, apresentando-se como razão principal a redução do trânsito e de estacionamento de viaturas no centro da cidade, salvo o devido respeito por melhor opinião, não é uma razão muito aceitável nem muito convincente. Para os moradores de Montijo, do meu ponto de vista, não se vislumbra qualquer vantagem na transferência do cais fluvial de passageiros do Cais do Vapores para o Cais do Seixalinho.»
                                               Cais do Seixalinho

21.05 - Presidente da Câmara Municipal, Maria Amélia Antunes – «A possibilidade, reconhecida recentemente pela Transtejo, de se ver obrigada a suspender, a curto prazo, a ligação Montijo/Lisboa com navios rápidos, devido à degradação progressiva das condições de navegabilidade do canal do Montijo e aos problemas ambientais criados torna ainda mais urgente a opção pelo Cais Fluvial do Seixalinho. No entanto, para a autarquia esta justa opção deve estar intimamente ligada à valorização e requalificação do Cais dos Vapores, dotando-o de um porto de recreio, com apoio às diversas actividades náuticas, sedes de clubes, prevendo-se a instalação de restaurantes e actividade terciária.»

25.05 – Transtejo publica anúncio para a empreitada de construção do novo terminal fluvial do Montijo – Cais do Seixalinho. O prazo de execução da obra é de 150 dias e o preço base de 650 mil contos.

www.geocities.com/cais_vapores_sim é a página da Internet criada pela Plataforma Cívica de Defesa do Cais dos Vapores com o objectivo de disponibilizar informação sobre o Cais dos Vapores e as consequências  de uma hipotética transferência da estação fluvial para o Cais do Seixalinho. Nesta mesma data foi divulgado o endereço electrónico deste movimento cívico: cais_vapores_sim@yahoo.com

Rui Jorge Aleixo – «A Transtejo distribuiu aos seus clientes uma nota informativa onde tenta justificar a razão da mudança do cais. Razões factuais e concretas não se vêem, ou melhor, não se lêem em tal nota, dita «informativa», pois é mais aquilo que a Transtejo não diz do que aquilo que diz. Por exemplo, refere a Transtejo sobre as dragagens «que por motivos ambientais conhecidos não poderão continuar a realizar-se», mas não refere os motivos. Serão as minhocas que aquele, que agora se comporta como o porta-voz da Transtejo em Montijo, tanto diz defender? Pelas imagens feitas em CAD (Desenho Assistido por Computador) do «projecto» (da estação fluvial) pode ver-se que o Cais do Seixalinho continuará a ser utilizado para «a movimentação de areias e adubos» assim como para a movimentação de pessoas. É deste modo que a Transtejo coloca «os clientes no centro das preocupações».

1.06 – Nova Gazeta – «O Ministério do Equipamento Social (MES) não mandará dragar a cala do Montijo, se o cais for deslocalizado para o Seixalinho, e toda a zona contígua ao cais dos Vapores ficará assoreada, como aconteceu com a desactivação do denominado Cais do Milho/Mundet, que se situa a montante do actual cais. O Ministério respondeu assim à pergunta feita pelo Bloco de Esquerda: «relativamente à pergunta - que obras de conservação e manutenção do Cais dos Vapores estão previstas, uma vez que a sua desactivação pode significar o seu abandono ou assoreamento do rio – cumpre-nos informar que tanto quanto sabemos a Câmara Municipal desenvolve neste momento medidas no sentido da requalificação da zona ribeirinha com o aproveitamento do Cais dos Vapores para fins alternativos aos actuais.»

Carlos Fradique – «De ferozes opositores, o Partido Socialista, o Sr. José Bastos e a sua Presidente, Dr.ª Amélia Antunes, passaram a empenhados defensores da solução Seixalinho. Pergunta o povo incrédulo: o que mudou então? Bem sabemos que à data (1991) o Governo do País não estava nas mãos dos socialistas, a Câmara do Montijo era gerida por outra força política e os gestores públicos da Transtejo e do Porto de Lisboa não haviam sido nomeados pelo Partido Socialista. Mas será que a mera alternância do poder muda por completo as convicções das pessoas? Agarrados ao poder como estão, pensam que já não vale a pena discutir ideias, nem projectos, porque eles e apenas eles são os donos e senhores da verdade e da razão. Haja vontade e tenham os socialistas poder para tal, que proximamente prédios não faltarão na zona do Seixalinho. Como acima de qualquer interesse devem estar os interesses dos montijenses, entendemos que através do referendo devem ser os nossos conterrâneos a dizer sim ou não ao Seixalinho.»

4.06 – Plataforma Cívica de Defesa do Cais dos Vapores dirige-se ao Presidente da República solicitando-lhe uma audiência, «porque em visita ao nosso concelho alertou para os perigos de um crescimento urbano sem regras, para o qual este projecto contribui decisivamente. Porque o processo de decisão está inquinado, ferindo as mais elementares regras democráticas e porque se o projecto for concretizado contundirá com a História e os interesses das populações».

8.06 – Nova Gazeta – «A Plataforma Cívica de Defesa do Cais dos Vapores reuniu com Luís Reis, Adjunto do Secretário de Estado dos Transportes, em Lisboa. A indicação dada por Luís Reis que “O Cais do Seixalinho constituirá uma nova centralidade com a expansão da cidade para o poente, ao encontro do novo cais» foi a nota mais saliente do encontro que se pautou, da parte do Adjunto do Secretário de Estado, por confirmar os argumentos já aduzidos pela Presidente da Câmara.»

Presidente da Câmara Municipal, Maria Amélia Antunes – «É com sentida emoção e agrado que vejo iniciarem-se as obras do novo terminal rodofluvial do Seixalinho, 133 anos depois de inauguração das carreiras para Aldeia Galega, em 1868. Com a construção agora iniciada do novo Cais do Seixalinho, o interior da nossa cidade será servido por uma rede de transportes em mini-autocarros, capaz de satisfazer mais e melhor os utentes da Transtejo. A construção do novo terminal rodofluvial do Seixalinho, a requalificação da zona do velho cais dos Vapores e a recuperação ribeirinha, ajudarão o Montijo a vencer os desafios do presente, com a memória ancorada na tradição e os olhos postos no futuro.»

Rafael Teixeira – «A Transtejo está a dizer aos seus clientes da carreira «Montijo-Lisboa», que deixa de haver catamarans e o tempo de percurso na aludida carreira passa de 30 para 60 minutos. Não se entende! Aquando da apresentação dos catamarans, no tempo em que era Ministro o Exmo. Senhor Eng.º Ferreira do Amaral, naquela celebérrima viagem que durou 20 minutos a ligar Lisboa-Montijo, foi referido, por um Distinto responsável daquela Distinta Empresa, que os catamarans para navegarem necessitavam de 1,50 m de água devido ao seu calado.»

Rui Aleixo – «A Transtejo caiu no anedotário e o PS/Montijo, que gira à volta do Montijo como uma mariposa encandeada, já não acerta a bota com a perdigota. O Presidente dos socialistas do Montijo dança o vira e manda os seus correligionários dançar o baile mandado, que eles executam a preceito.»

terça-feira, 27 de março de 2012

Notícia da Inauguração da Rede de Abastecimento de Água em Montijo

«Ho ditto concelho há na ditta villa hu poço de que bebe todo o povo, que esta no cabo do lugar em querendo ir para Alcouchete. (1498)» - Actual Praça 1.º de Maio. No lado esquerdo da fotografia, o primeiro poço de abastecimento de água de Aldeia Galega do Ribatejo

Existiu um poço de água, na actual Praça 1.º de Maio, em Montijo, que resistiu até ao início do século XX. Foi a primeira fonte de captação e abastecimento de água à população de Aldegalega do Ribatejo mas que obrigava a um aturado vigilância, limpeza e conservação, porque, amiúde, havia queixas de lançamentos de animais mortos e outros dejectos, sobretudo, à medida que se foram diversificando as fontes de abastecimento de água.

O poço aparece já referido no Título das Propriedades Pertencentes à Câmara de Aldeia-Galega Mandado fazer por D. Manuel, em 1498, nos seguintes termos: «Ho ditto concelho há na ditta villa hu poço de que bebe todo o povo, que esta no cabo do lugar em querendo ir para Alcouchete.»

 O poço perdurou até ao primeiro quartel do século XX, altura em que já estava se procedia à distribuição de água porta-a-porta feita através de pipas. Cada 30 litros de água custavam então 10 réis.

 Em 1906, «foi presente à reunião da Câmara uma carta do comerciante de Lisboa, Manuel José da Silva, em que se propõe encarregar-se do fornecimento e colocação de um moinho no poço do Largo da Eira (Praça Gomes Freire de Andrade), cujo extracto é o seguinte: 1 torre de ferro de 15 metros de altura com escada e varandim, assentando nesta um moinho “Halladay” automático, americano, de 13 pés de diâmetro, que elevará a descarregar no depósito uma média de 14 metros cúbicos por dia (10 horas).» O comerciante propunha-se ainda a fornecer tubagens e bomba para ser picotada, no valor total de 596$000 réis. A proposta foi aceite e, em Outubro daquele mesmo ano, o moinho foi inaugurado.
Aldegalega tinha, então, três poços que abasteciam cerca de 11 mil habitantes.

                                          Chafariz no Bairro dos Pescadores - Lg. Dr. Manuel da Cruz Jr. (1961)

Os poços, os chafarizes e a distribuição privada constituíam então o sistema de distribuição de água à população. Os proprietários das carroças de distribuição garantiam que a água distribuída era «potável quimicamente considerada, pura e higiénica.»

                                                          Carroça de distribuição de água - 1940

«Água e luz! Supremas aspirações de uma terra civilizada…» exultava o articulista da Gazeta do Sul, jornal local, na véspera da data inaugural da rede de abastecimento de água – 29 de Junho de 1942.
Grandiosos festejos comemoraram a “Inauguração solene da luz eléctrica e águas.”
A inauguração «constou da abertura de um marco fontenário para consumo público, na Praça da República, seguida do abastecimento geral da vila.»

Noticiou a Gazeta do Sul: «Montijo acaba de viver os seus maiores dias, com festas promovidas para a inauguração dos dois grandes melhoramentos: água e luz e ainda duas novas viaturas dos bombeiros voluntários.
Visitaram Montijo diversas entidades oficiais além de S.Eas. os srs. Governador Civil e representante do ilustre Ministro das Obras Públicas.


Para trás ficavam os velhos poços, os aguadeiros, as grandes pipas transportadas carroças puxadas por bestas e a rivalidade entre os proprietários das empresas de distribuição de água ao domicílio. Um deles, o então presidente da câmara, António Joaquim Marques, apesar de saber que ia desferir um golpe fatal no seu negócio, foi um dos maiores entusiastas do estabelecimento da rede de água.

Foi em Dezembro de 1937 que, pela primeira vez, «estralejaram foguetes nesta vila e iluminou-se a fachada da Câmara Municipal, em sinal de grande regozijo pelo deferimento ministerial ao empréstimo para a realização do abastecimento de águas em Montijo», cujo projecto tinha sido apresentado, no ano anterior, pelo Eng.º Ricardo E. Teixeira Duarte.

Projecto inicial do depósito de água

O abastecimento de água tornou-se um investimento prioritário porque devido à má qualidade de água que se consumia, Montijo era então «uma terra de maior endemicidade tífica do distrito de Setúbal.»

António Joaquim Marques, que presidiu aos destinos do município entre 1937 e 1945, apesar dos tempos difíceis que o País atravessou, investiu nos últimos cinco anos do seu mandato «cerca de 5 000 contos em melhoramentos: o abastecimento de água à população importou em 2 00 contos; a nova rede eléctrica em mais de 1 000. Só em canos de esgoto enterraram-se para cima de 500 contos. Calçadas novas, reposição de pavimentos e outras obras diversas levaram o restante.»

         Depósito de água em construção, cerca de 1942

70 anos depois da inauguração da rede de abastecimento de água à Vila de Montijo o concelho está coberto pela rede pública, salvo caso pontuais, que resultam da especificidade da divisão geográfica do município e da ocupação do solo em algumas zonas rurais.


Ruki Luki




quinta-feira, 22 de março de 2012

Mataram o Montijo…

Demagogia não a leva o vento…

O anúncio do início das obras de construção do Cais do Seixalinho intensificou o debate popular à volta da deslocalização do cais.

Movidos pela genuína defesa dos interesses de Montijo, eu e o meu amigo António Dores, em amena cavaqueira, decidimos que o momento exigia acção e coordenação e resolvemos então proceder a vários contactos com as forças vivas do município, que originaram a constituição da Plataforma Cívica de Defesa do Cais dos Vapores, movimento sui-generis, cuja história será contada numa outra oportunidade.

Face à contestação popular contra a deslocalização do Cais dos Vapores, foi então prometido pela Presidente da Câmara e/ou sr. José Bastos, então presidente da Comissão Política Concelhia de Montijo do PS e aparente alter ego presidencial:

·         Construção do Terminal Rodo-Fluvial do Cais do Seixalinho.

·         Criação de um Sistema de Transporte Rápido (Eléctrico) entre o Cais do Seixalinho e o Centro da Cidade.

·         Construção, no Cais do Seixalinho, de um Centro Comercial com sete lojas e um restaurante panorâmico no 1º andar, situado no espaço que fica a poente e a sul do actual aterro, e de um infantário.

·         Construção da circular externa, que viria da Rotunda do IC 13 (em vez de vir pela estrada da Atalaia), atravessaria a estrada de Alcochete e de Samouco, até à zona dos arames da Base Aérea nº 6, descendo daí até ao Seixalinho, que estaria pronta em 2004.

·         Construção de uma marina ou espelho de água, com apoio de diversas actividades náuticas, sede de clubes, instalação de restaurantes e actividades terciárias.

·         Recuperação da zona histórica.

·         Mini-bus.

·         Recuperação da estrada de acesso ao Seixalinho.

·         Promoção do Montijo como centro de serviços da área oriental da Península de Setúbal.

·         Títulos de transportes mais baratos.

·         Novos e melhores transportes públicos.

·         A construção de um porto de recreio.

Apesar da importância do acontecimento e do seu real impacto na vida do município, veio uma munícipe denunciar que «nunca o assunto (transferência do cais) foi posto para aprovação em sessão de Câmara... como aliás foi reconhecido pela Presidente Maria Amélia Antunes que, perante a denúncia de tal comportamento feito pela CDU na reunião de 28.02.01, respondeu com estas palavras que ficarão na história do anedotário antidemocrático montijense «não seria honesto trazer a proposta do Seixalinho(à aprovação em sessão de Câmara) sabendo à partida que iríamos ganhar!»

Ruki Luki


O Imenso Adeus ao Cais dos Vapores

«O Cais do Seixalinho surgirá não como um filho bastardo, mas como resultado de pura cobardia política.»

    Lá vem o barco para o Cais dos Vapores... Era um tempo de cidade viva!

2001

5.01 – Nova Gazeta – «As obras de construção do Cais do Seixalinho iniciar-se-ão ainda no corrente mês, devendo estar concluídas no final do ano, segundo garantiram os Serviços da Transtejo à «Nova Gazeta». Segundo a Transtejo, nessa altura, as carreiras para Lisboa partirão do novo cais e o Cais dos Vapores será desactivado. A decisão da Transtejo contraria a posição tomada pela Presidente da Câmara e pelo Partido Socialista segundo a qual o Cais do Seixalinho só seria activado depois de terem sido construídas algumas infra-estruturas de apoio. Na realidade, ainda não se conhecem os estudos que fundamentem a opção pelo Sexalinho em detrimento do cais dos Vapores.»

12.01 – Os líderes dos Partidos da oposição (PCP,CDS/PP,PSD e BE) manifestam-se, em entrevista, contra a mudança do cais para o Seixalinho, ao contrário do PS, que a defende visto «tratar-se de um cais de grande futuro para servir os concelhos de Montijo, Alcochete, Palmela, Moita, Vendas Novas, Montemor-o-Novo e todo o sul do país.» Os socialistas afirmam ainda que «quanto ao serviço de transportes rodoviários para a cidade, ninguém de boa-fé vai pensar que eles não vão ser assegurados num projecto desta grandeza.»

Nova Gazeta – «Um grupo de cidadãos tem procedido a contactos com as forças vivas e os partidos em ordem a ser constituída uma plataforma para salvaguarda da Cais dos Vapores, uma vez que a população rejeita a mudança do cais de atracação para o Seixalinho. O grupo de cidadãos pretende assim criar um forte movimento cívico, que demova a s autoridades a mudarem o cais, uma vez que, até hoje, não foram avançadas quaisquer razões convincentes para que se encerre o actual cais.»

31.01 – A Câmara Municipal aprova o Plano Estratégico da Cidade do Montijo que prevê a construção do Terminal Rodo-Fluvial do Cais do Seixalinho e a criação de um Sistema de Transporte Rápido (Eléctrico) entre o Cais do Seixalinho e o Centro da Cidade.

2.02 – Rui Aleixo – «A Assembleia de Freguesia do Montijo disse Não! à mudança do cais para o Seixalinho. À praça pública veio a CDU dizer não! À mudança do cais para o Seixalinho. E também o PSD manifestou-se no mesmo sentido. E o Bloco de Esquerda, E o CDS/PP. E vários munícipes engrossaram a voz da Assembleia de Freguesia do Montijo para dizerem Não! À mudança do Cais para o Seixalinho. Entre eles alguns socialistas. O Senhor José Bastos disse sim! À mudança do Cais para o Seixalinho. A Câmara Municipal do Montijo e a Assembleia Municipal omitiram qualquer posição num assunto de tamanha importância para as populações, num comportamento que se não sabe se traduzir como fraqueza política ou estratégia política. A mudança do Cais para o Seixalinho ou a sua manutenção no local histórico depende só de nós. É altura de nos organizarmos para dizermos fortes e uníssonos de vez: Basta!»

                                               Barco que antecedeu a era pré-catamaran

9.02 – José Bastos – «Este projecto (Cais do Seixalinho), que andará à volta de um milhão de contos, irá contemplar um parque de estacionamento de 1500 lugares, com possibilidade de duplicação, ou seja, poderá ficar com a capacidade para 3000 lugares. Terá ainda um Centro Comercial com sete lojas e um restaurante panorâmico no 1º andar, situado no espaço que fica a poente e a sul do actual aterro. Temos insistido junto ao governo para que comparticipe na construção da circular externa, que viria da Rotunda do IC 13 (em vez de vir pela estrada da Atalaia), atravessaria a estrada de Alcochete e de Samouco, até à zona dos arames da Base Aérea nº 6, descendo daí até ao Seixalinho, e temos a promessa de Jorge Coelho que a circular externa será comparticipada. Não vai aumentar nada! Os utentes vão pagar exactamente o mesmo que pagavam ao deslocarem-se para o Cais dos Vapores. Vai é aumentar o número de carreiras fluviais assim como irá existir transportes colectivos até mais tarde.»

16.02 – Constituição da Plataforma Cívica de Defesa do Cais dos Vapores, no Restaurante «Estrela do Norte» por um grupo de cidadãos pada definir e prosseguir uma estratégia de defesa do cais dos vapores. A Plataforma Cívica apresentou-se como um movimento aberto a todos os cidadãos, sem estrutura orgânica própria, nem dirigentes ou porta-vozes, participando, em cada momento, os cidadãos que assim quisessem, em igualdade de circunstâncias. Embora se tivesse mantido um grupo coeso, que implementou as directivas traçadas em cada reunião, a Plataforma Cívica recebeu, de facto, a colaboração de uma multiplicidade de cidadãos ao longo da sua actividade, colaborando uns por umas horas, outros por dias, outros quase sempre. As decisões eram tomadas por unanimidade e as reuniões realizaram-se na sede da Associação dos Comerciantes, que desde a primeira hora a apoiou. A Plataforma Cívica pretendeu lançar um debate de ideias em torno da defesa do Cais dos Vapores, restringindo a sua acção exclusivamente à sua defesa. O que uniu os membros da Plataforma Cívica foi a convicção que a opção Seixalinho era apressada e pouco transparente e não acautelava os interesses da população do Montijo.

Presidente da Câmara, Maria Amélia Antunes - « (A construção do Cais do Seixalinho será) Em síntese, uma intervenção geral na mesma linha do Parque das Nações, tal como sempre defendemos. Desenganem-se aqueles que apostaram que a transferência implicará o esquecimento do Cais dos Vapores. Iremos recuperar a faixa ribeirinha em moldes inovadores que passará pela construção de uma marina ou espelho de água, com apoio de diversas actividades náuticas, sede de clubes, prevendo-se ainda a instalação de restaurantes e actividades terciárias sem esquecer a recuperação da zona histórica.»

Presidente da Câmara, Maria Amélia Antunes – Informa que tem estado em contacto com os Transportes Sul do Tejo (TST), e que tudo indica, em Junho ou Julho, já existirão mini-bus a funcionar à experiência no seio da cidade. O primeiro troço da circular (entre a Estrada Nacional nº4, a Rotunda S.Sebastião e o Estabelecimento Prisional do Montijo) está pronto a ser executado e que uma empresa sediada no Seixalinho irá recuperar a estrada de acesso à área.

Jornal do Montijo – «Apesar da presidente garantir que não conhece ainda o projecto, revelou na sessão pública (reunião a câmara) alguns pormenores como uma área coberta para a tomada e largada de passageiro, uma praça de táxis, estacionamento para 1400 viaturas, uma estação e oficina para abastecimento de veículos, uma zona de serviços dotada de snack-bar e restaurante.»

Vereadores da CDU – Apresentam na reunião da Câmara Municipal, antes da ordem do dia, um documento do Ministério do Equipamento Social, intitulado “Perspectivas de Evolução dos Transportes, onde se coloca a hipótese de opção, ou pelo Cais dos Vapores ou do Seixalinho, concluindo que «ponderadas as diversas variáveis, caberá ao município a decisão sobre a localização definitiva do terminal.» A Presidente da Câmara garantiu que apenas lhe cabe concordar ou não, pois a decisão pertence à Transtejo.

Luís Luizi – «Confesso que sempre achei estranho que uma cidade moderna prescindisse de uma alternativa de acessibilidade como a travessia fluvial, mas ainda achei mais estranho que alguém, da própria cidade, aplaudisse essa menos valia. Só depois percebi que, neste edifício democrático em que vivemos, há luz e sombra; há quem manda sem ser votado para tal, e há quem, sob o manto diáfano da maioria, se veja obrigado a obedecer, em assuntos que lhe foram escamoteados, quando do voto. Certamente o bom senso imperará, e o Montijo não irá fazer uma figura triste e perder uma alternativa de transporte colectivo, uma vez que , nas modernas cidades, se considera importante criar escolhas múltiplas de transporte.»

                                           Desembarque no Cais dos Vapores

Rui Jorge Aleixo – «Há uns anos atrás, na sua tomada de posse como Presidente dos Estados Unidos da América, o Presidente George Bush (o pai) prometeu que não aumentaria os impostos, pronunciando uma frase célebre que traduzida dá: «leiam os meus lábios, eu não aumentarei os impostos!». Uns tempos mais tarde o mesmo presidente foi obrigado a subir os impostos. O Sr José Bastos, que não é membro nem dos conselhos de administração das empresas que controlam os barcos e os autocarros, que não ocupa nenhum lugar de relevo na estrutura do poder, local ou nacional, porque não está eleito para tal, vem agora prometer o que não pode prometer, e muito menos cumprir.»

Rui Aleixo – «Sem o barco o Cais dos Vapores morrerá. O Montijo e as suas gentes estão perante um grave dilema: conservar ou não o Cais dos Vapores como ponto de partida do barco ou permitir a sua deslocalização para o Seixalinho. Hoje, as raras pessoas, levadas quiçá por interesses particulares em detrimento dos interesses da comunidade, que defendem a opção Seixalinho oferecem promessas fantasiosas de um futuro ridente a belo prazer, com obras cujo valor ascenderá a milhões de contos, feitas de um dia para o outro. Pura fantasia. Depois do cais transferido todas as promessas cairão ou serão concretizadas a longo prazo. Eu digo Sim! Ao Cais dos Vapores. Porque sei que se o barco sair dali toda esta zona morrerá e porque tenho a convicção que o barco nada prejudica, pelo contrário. Mas, não basta dizer Sim! Ao Cais dos Vapores. A hora é de acção.»

20.02 – A Deputada da Assembleia da República Lucília Ferra (PSD), apresenta na Assembleia da República um requerimento onde interroga o Governo sobre os propósitos e fundamentos de avançar com a transferência do cais para o Seixalinho.

21.02 – Apresentação pública do novo Terminal Rodo-Fluvial do Seixalinho, com a presença do Ministro do Equipamento Social, Jorge Coelho, que se fez acompanhar pelos Secretários de Estado Adjunto e das Obras Públicas e da Administração Marítima e Portuária. É anunciado que a obra custará 950 mil contos, estará concluída em Novembro e que o tempo de percurso Montijo/Lisboa passará a ser de 20 minutos.
É assinado um protocolo entre o Instituto das Estradas de Portugal e a Câmara Municipal do Montijo para a construção da circular externa de acesso ao novo cais. É afirmado que o primeiro troço da circular estará pronto, em Novembro, por altura da inauguração do cais. A Comunicação Social dá relevo à contestação feita na altura da apresentação do projecto pela Plataforma Cívica de Defesa do Cais dos Vapores, que discorda da transferência do cais, e aproveitou a cerimónia para entregar ao Ministro o seu Manifesto «A Quem Interessa O Cais do Seixalinho». A Presidente da Câmara, Maria Amélia Antunes, garante que a circular externa estará pronta em 2004 e considera “um disparate” as preocupações da Plataforma Cívica quanto a eventuais interesses urbanísticos para aquela zona, e declarou em resposta à contestação da Plataforma Cívica que «É precisa ter presente que os ventos da história apesar de alguns ainda não se darem conta – derrubaram muitos muros e fizeram com que muita coisa deixasse de ser tabu e passasse a ser concretizável. (...) Aproveitando o posicionamento do Montijo em relação a Lisboa vamos promovê-lo como centro de serviços da área oriental da Península de Setúbal.» O Presidente do Conselho de Administração da Transtejo, Armindo Bento, declara que haverá uma redução no custo dos títulos de transporte combinado (fluvial rodoviário) na ordem dos três por cento.»

 22.02 – A Presidente da Câmara, Maria Amélia Antunes envia carta aos Montijenses declarando o apoio da Câmara à mudança do cais «preconizada pela Transtejo.»

23.02 – Plataforma Cívica de Defesa do Cais dos Vapores entrega  o seu Manifesto ao Presidente da Assembleia Municipal e solicita-lhe que seja «um elemento incentivador do debate e do esclarecimento».

Plataforma Cívica de Defesa do Cais dos Vapores - «Rejeitando a Srª Presidente da Câmara autoria do projecto e da decisão, e atirando a Transtejo a responsabilidade para a Câmara Municipal, que nada decidiu, o Cais do Seixalinho surgirá não como um filho bastardo, mas como resultado de pura cobardia política. A forma como tem sido conduzido o processo levanta a suspeição de saber quem são os beneficiados com a deslocalização do Cais para o Seixalinho. A cerimónia que se realizou no dia 21 tem a sua origem num equívoco criado pela Sra. Presidente, pela falta de transparência do processo de decisão e ausência da participação da população do Montijo.»

28.02 – “O Setubalense” – «Francisco dos Santos, presidente da Junta de Freguesia do Montijo, defendeu publicamente a transferência das carreiras fluviais para o Seixalinho. O autarca disse que actualmente tem garantias de que estão criadas as condições para a mudança e de que os problemas que eventualmente possam surgir serão resolvidos. Daí que, abandonando uma postura de neutralidade, o presidente da Junta tenha concluído que «sou a favor, neste momento, da transferência do cais para o Seixalinho».

A Presidente da Câmara, Maria Amélia Antunes apresentou, na reunião da Câmara, um documento intitulado «Seixalinho: As Razões de Uma Opção».

Deputado Municipal João Veiga (CDU) – « (O documento apresentado pela Presidente) É suficiente para fazer uma tese sobra a venda da banha da cobra, por não haver impactos negativos, em relação à transferência das carreiras fluviais para a periferia.»

                                               O Cais dos Vapores dava vida à cidade
                                     
Deputado Municipal José Evangelista (PS) – «O grupo do Partido Socialista da Assembleia Municipal congratula-se com o início da concretização deste projecto que qualificará o concelho e a cidade do Montijo, reforçando a sua importância estratégica na Península de Setúbal.»

2.03 – Deputada da Assembleia da República Lucília Ferra (PSD) – «Por mais que me esforce não me recordo de ter sido apresentado à população qualquer projecto(de mudança do cais).É pois com estranheza que vejo o Sr. José Bastos a anunciar o «Projecto do Cais do Seixalinho», desconhecido de todos nós e pior, a avaliar pelo conteúdo das declarações prestadas, a avançar nos próximos meses sem qualquer discussão pública. É o autoritarismo obscurantista na sua expressão máxima. Mas o que mais me confrange e repugna é que matérias deste teor venham para a praça pública pela voz de alguém que não tem qualquer autoridade para o efeito. Os eleitores escolheram a Drª Maria Amélia Antunes para Presidente da Autarquia, mas afinal quem manda e governa, quem põe e dispõe do destino dos Montijenses é o Sr. José Bastos. Enquanto ele apresenta«o maior projecto de estações fluviais da Transtejo e do País», ela disserta candidamente sobre a história do sobreiro. Enquanto ele anuncia a cumplicidade do Governo para o projecto, ela exerce funções meramente formais sem qualquer poder de influência ou decisão.»

Mário Pinto – «(A mudança do Cais dos Vapores é um) Assalto à razão e ao coração. Este Cais Fluvial é sem dúvida um dos elementos históricos marcantes dos costumes Montijenses. Erro urbanístico semelhante já foi cometido há décadas noutros países com arrependimentos e que hoje ninguém quer repetir. Pelo contrário, tenta-se até salvaguardar e até recriar o clima fluvial das fainas dos velhos rios que eram estradas de ligação que ligavam os concelhos vizinhos às cidades e capitais por onde, no passado, transitavam as mercadorias e pessoas fazendo crescer a economia de cada região. Há um assalto à razão e ao coração porque hoje, graças ao avanço da ciência e da técnica, o Homem tem a responsabilidade de transformar e moldar a natureza de modo ordenado e equilibrado às condições naturais.»

9.03 – José Bastos – «O que faz correr a plataforma cívica? O projecto (transferência do cais) é de interesse regional e local, beneficia o centro histórico da Cidade do Montijo diminuindo a circulação de veículos, melhorando a qualidade do ar que se tornaria insuportável se o Cais Fluvial continuasse junto à cidade. Perante uma situação tão evidente como esta o que faz correr a Plataforma Cívica? A estratégia da plataforma, dos senhores Rui Aleixo, Carrera e Caetano, vai contra a corrente do que se passa no mundo moderno, isto é, em todos os lugares do mundo se procura retirar o trânsito automóvel dos centros históricos, por causa da poluição e para ceder um maior espaço aos peões que viram os seus lugares invadidos pelos automóveis.»

Nova Gazeta – «A Plataforma Cívica de Defesa do cais dos Vapores decidiu, na sua última reunião, recorrer às instâncias europeias para pedir a avaliação do projecto de construção do Cais do Seixalinho. Segundo a Plataforma Cívica, entre outras questões a suscitar, estão as que se prendem com os estudos do impacto ambiental, que se desconhecem, e com a falta da participação da população na escolha do local do cais. Aquele movimento cívico considera que se está face a uma campanha conjunta da Câmara Municipal do Montijo e da Transtejo para convencerem a população que o Cais do Seixalinho é uma obra irreversível.»

16.03 – Aurora Duarte – «Com efeito nunca o assunto (transferência do cais) foi posto para aprovação em sessão de Câmara... como aliás foi reconhecido pela Presidente Maria Amélia Antunes que, perante a denúncia de tal comportamento feito pela CDU na reunião de 28.02.01, respondeu com estas palavras que ficarão na história do anedotário antidemocrático montijense «não seria honesto trazer a proposta do Seixalinho(à aprovação em sessão de Câmara) sabendo à partida que iríamos ganhar!» E que não venham milhares de utentes dos transportes fluviais apresentar a sua opinião, nem se criem movimentos ou escrevam artigos sobre o assunto porque, do alto da sua cadeira do poder que lhe foi dado pelos mecanismos democráticos, a Presidente da Câmara do Montijo de todos eles faz tábua rasa com o argumento apresentado na sessão de Câmara, em 28.02.01, de que «não foram eleitos»! Perante atitudes e afirmações deste teor se dúvidas houvesse sobre a transparência e verdade de todo o processo relativo ao Cais dos Vapores, penso que estão agora definitivamente esclarecidas.»

Luís Luizi – «Há mudanças e mudanças...A mudança gravíssima que vai marcar a vida colectiva desta terra por muitos anos, tem a ver com a eventual morte do Cais do Montijo pelo modo como os montijenses têm sido tratados, relativamente à problemática do Cais. Em democracia há procedimentos e processos que não são sequer de pensar, quanto mais de praticar. O Cais dos Vapores levanta problemas que este executivo nunca tentou minorar, mas que têm solução. O que nunca mais poderá ser resolvido nem esquecido, é a «vergonha» (do ponto de vista da democracia e da participação cívica) traduzida no modo como a população foi tratada em todo este processo.”

Rui Aleixo – «O anúncio da constituição da Plataforma Cívica causou, nas hostes dos dirigentes do Partido Socialista do Montijo, uma profunda preocupação e desconfiança. Pois bem, face a um conjunto de ideias (apresentadas pela Plataforma Cívica) o que fez o Partido Socialista, quer através dos seus altos dirigentes locais, quer através das suas «correias de transmissão»? Discutiu-as? Não! Criticou-as? Também não! O grito que se ouviu das hostes socialistas foi: «Quem são? Quantos são?». O que importa saber quem são e quantos são? O que a Plataforma Cívica está a fazer é questionar se se esgotaram todas as potencialidades de utilização do Cais dos Vapores e, por outro lado, denunciar o modo pouco transparente e falho de democraticidade que está a envolver a eventual transferência do Cais para o Seixalinho.»

Filipe Carrera – «Sabe porque saí de Lisboa, Sr. José Bastos? Porque em Lisboa houve alguns José Bastos, que consideraram que aqueles que defendiam o desenvolvimento integrado eram os tais “Velhos do Restelo”. Era preciso construir prédios, mais prédios e mais prédios, para tornarmo-nos modernos, mas sem alma. A sua visão de modernidade assemelha-se mais a Almada, Barreiro, Cacém ou Odivelas, a sua obsessão é um crescimento de prédios. Se eu fosse psicólogo diria que o Sr. José Bastos é um “pato bravo” frustrado. A minha visão de modernidade tem um princípio básico associado, a qualidade de vida dos cidadãos, o seu princípio básico é o betão.»

20.03 – Plataforma Cívica dá entrevista à SIC, no Cais dos Vapores

21.03 Presidente da Associação dos Comerciantes (Montijo), António Caetano – «Na actualidade de Maria Amélia Antunes, o povo aponta o dedo ao Sr. José Bastos, como figura que controla e impõe através da Câmara a sua vontade ao povo do Montijo. Verdade ou não, assim fala o povo!? Nós não somos tão radicais, mas constatamos incrédulos o peso excessivo da influência desta figura na «prática» da Câmara Municipal. À falta de argumentos e de factos concretos, o Sr. José Bastos usando métodos esquecidos no tempo dos caciques locais usa a falta de rigor, a inverdade dos argumentos que apresenta, e uma fútil tentativa de descrédito do presidente desta casa, redutora do seu cargo, tentando conotá-lo com a «oposição não partidária». (A transferência do Cais) agravará o comércio existente, já de si prejudicado pela Câmara Municipal. Fala o Sr. José Bastos na falta de representatividade desta comissão (Plataforma Cívica).Mas nós interrogamos, quem elegeu o Sr. José Bastos para falar em nome dos montijenses?»

22.03 – O Deputado da Assembleia da República, Luís Fazenda (B.E.) requer ao governo esclarecimentos sobre que infra-estruturas de acesso ao novo cais estão previstas, se o estacionamento junto ao novo cais será pago e que obras de conservação e manutenção do Cais dos Vapores estão previstas, uma vez que a sua desactivação como cais de embarque da Transtejo pode significar o seu abandono ou assoreamento do rio e que estudos de impacte ambiental foram produzidos na elaboração do novo cais e quais os resultados.

23.03 – Presidente da Câmara Municipal do Montijo, Maria Amélia Antunes – «Um bom projecto dispensa muitas palavras. A transferência do Cais dos Vapores para o Seixalinho permitirá títulos de transportes mais baratos; novos e melhores transportes públicos; a construção de um porto de recreio.»

Plataforma Cívica realiza sessão de trabalho com o eurodeputado do PSD, Jorge Moreira da Silva, que tinha questionado a Comissão Europeia sobre se fora atribuído algum subsídio comunitário para a construção do Cais do Seixalinho, que tipo de avaliação ambiental tinha sido feito, uma vez que o Cais do Seixalinho está localizado na zona de um importante ecossistema de aves e de espécies aquáticas e se o projecto respeitava a Directiva Aves e a Directiva Habitat.

Rui Aleixo – «O Partido Socialista é, no Montijo, um partido órfão. O Dr. Jorge Coelho foi um bom ministro para o Partido Socialista e enquanto Ministro das Obras Públicas foi pródigo no apoio ao PS/Montijo. Ora, não é em vão que se perde um apoio governamental deste género, não é sem uma sensação de vazio que se vê partir um ministro, que se tornara uma visita assídua. O PS/Montijo destilava confiança quando sabia que podia contar com o apoio ilimitado de Jorge Coelho. Hoje, perdeu a sua primeira referência política e encontra-se a navegar sem leme nem cais (mesmo do Seixalinho) à vista.»

30.03 – Carlos Fradique – «Não é natural que a Srª Presidente da Câmara de Montijo, no espaço de 15 dias, tenha sentido a necessidade de se dirigir aos munícipes, sobre o mesmo assunto, duas ou três vezes, por meio de carta e me separata de jornal. O assunto, imaginem, foi nem mais nem menos do que o “Cais do Seixalinho”. Quer dizer, a SRª Presidente, preocupada com o descontentamento da população, refugia-se em desdobradas comunicações escritas, com custos elevadíssimos que saem do bolso de todos nós e que seriam desnecessários se aceitasse, humilde e democraticamente o debate público que há muito lhe vem sendo proposto e de que sistematicamente foge como o diabo da cruz.»

Transtejo Notícias – «Desde a apresentação pública do projecto para a construção do novo terminal rodofluvial, que se aguarda pacientemente o desfecho das obras. Espera-se a conclusão da estação fluvial para Novembro/Dezembro de 2001 e a conclusão definitiva da obra para Janeiro de 2002, incluindo o parque de estacionamento.»

Filipe Carrera – «É extraordinário o esforço que a Câmara Municipal do Montijo faz para promover uma obra da...Transtejo. A Sr.ª Presidente procura combater um vasto conjunto de Montijenses que quer preservar o Cais dos Vapores e que têm apenas como recursos boa vontade e a convicção que o Montijo pode ser diferente sendo ainda possível evitar a transformação em subúrbio que esta Câmara deseja. Mas ao menos a SR.ª Presidente dá informação real? Não, é tudo virtual. Temos o cais virtual, as lojas virtuais, a marina ou espelho de água (conforme os dias) virtual, os acessos virtuais, enfim uma autêntica feira de virtualidades. As armas da Sr.ª Presidente são a desinformação e a promoção de virtualidades, fugindo sempre ao debate público. As armas da Plataforma Cívica de Defesa do Cais dos Vapores são a verdade e a vontade de debater as questões fundamentais para o nosso concelho.»

Ruki Luki

terça-feira, 20 de março de 2012

Em Benguela havia uma velha ponte cais.

Em Benguela havia uma velha ponte cais.

Corríamos por ela dentro como se quiséssemos saltar a linha do horizonte, que nos parecia ali ao alcance das nossas mãos.

Era na ponte que pescávamos, na ponte nos divertíamos e era na ponte que sonhávamos os grandes cruzeiros da vida e viajávamos sem bilhete para as estrelas que o sol desenhava no esverdeado do mar.

À tardinha, recolhíamos ao fundo da ponte e já com a noite a anunciar-se nadávamos em silêncio.

Era à velha ponte que vinham atracar os pequenos barcos de cabotagem. Era na velha ponte que descansavam sabe-se lá de que canseiras.

A ponte tinha a sua própria vida, que escondia para si, mas era também o cenáculo dos encontros da vida.

Comecei a nadar junto à ponte. E comecei a afoitar-me deixando os seus pilares. Longe, cansado, desejava-a por perto e alcançando-a sentia-me seguro e reconfortado. Em casa, lembrar-me-ia dela? Para quê se sabia que ela ali estava eterna ao sabor das marés, resistindo às calemas, não regateando o seu abrigo, aceitando a riqueza e firme erguendo-se para que os pobres pudessem admirar o fim dum dia prenúncio do dia novo.
  

   








                                                         Palácio do Governo Provincial

Cresci junto à ponte. Não trocámos palavras, apenas afectos, que se geraram no lado insondável da vida. E sempre que a apetecia, nesta busca intensa que é saber da vida e dos seus caminhos, ali estava a ponte silenciosa, mas benévola, aceitando naturalmente as minhas ausências e rejubilando com a minha presença.

A ponte parecia-me indestrutível, daquelas obras que os deuses sempre ergueram em honra dos seus deuses. Impunha-se ao mar, fazia assobiar o vento e tinha a areia a acariciar-lhe os pilares.

Olhei um dia distraído com os olhos de quem já vira o sol pôr-se tantas vezes que já lhe perdera a conta e penso que foi por viver apaixonado pelo sol e encantado pela lua e perdido nas estrelas que ensinam ao leão os trilhos na savana que não reparara na primeira ferida, não ouvira o primeiro queixume, o primeiro anúncio do seu fim. Sempre a imaginara eterna.


                                             Igreja de N.ª Senhora do Pópulo

Não sei da velha ponte cais de Benguela. Sei que me levou a alcançar o horizonte. Sei que foi meu porto de abrigo e avenida de liberdade. Sei que tudo me deu e nada me exigiu. Sei que quando a quis se dispôs e quando, se porventura a esqueci, não se magoou. Sei que a ponte envelheceu de tal monta, que já não me permitia que caminhasse nela em direcção ao infinito, para que eu o alcançasse no meu próprio voo.

Também eu me fui afastando naturalmente da ponte.

A vida segue o voo dos pássaros, mas retém-se no coração dos homens. Parti e levei, sei lá em que parte de mim a guardei, a velha ponte cais de Benguela. Ainda hoje – basta querer – a evoco, e volto para cima dela e percorro os caminhos que só ela me ensinou e que só eu assim aprendi – os meus caminhos, os caminhos do meu horizonte, as avenidas da minha liberdade.


                                                  O então Palácio do Comércio

Dizem que a ponte se desmoronou. Veio uma calema medonha e não respeitou a fraqueza de tanta velhice. Dizem, mas não sabem que mentem. A ponte está dentro de mim. Mora não na minha saudade, mas na presença alegre da partilha íntima dos meus afectos, dos meus receios, da minha indómita vontade de alcançar sempre um novo horizonte.

                                              Igreja de N.ª Senhora de Fátima

Deito-me no último pilar desnudo da velha ponte cais de Benguela e adormeço ouvindo o mar, embalado pelas casuarinas, encantado pelo luar. Sei que o vento em breve soprará suave e levar-me-á então para lá onde de madrugada cantam os martrindindes a anunciar a alva aurora dum novo ser, para que lá longe, no silêncio do Tchangonge, lá onde vivi em felicidade, me erga então dos braços da minha doce e bela avó, como velha ponte cais dos meus filhos.

Havia em Benguela uma velha ponte cais. E tinha um farol...